{"id":7651,"date":"2025-08-08T08:00:13","date_gmt":"2025-08-08T11:00:13","guid":{"rendered":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/?p=7651"},"modified":"2025-08-08T08:02:53","modified_gmt":"2025-08-08T11:02:53","slug":"o-cisne-vermelho","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/o-cisne-vermelho\/","title":{"rendered":"O Cisne Vermelho"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">(Publicado em <em>O Estado de S\u00e3o Paulo<\/em>, 8 de agosto de 2025)<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Cisnes negros, na imagem criada por Nassim Taleb (<em>The Black Swan: The Impact of the Highly Improbable.<\/em> Random House, 2007), s\u00e3o fen\u00f4menos inesperados, como uma crise financeira ou a pandemia do Covid, que for\u00e7am pessoas, empresas e institui\u00e7\u00f5es a buscar novos caminhos. Cisnes vermelhos s\u00e3o previs\u00edveis, mas afetam de maneira t\u00e3o profunda os h\u00e1bitos e as rotinas que as pessoas preferem fingir que n\u00e3o existem, at\u00e9 que seja tarde demais.&nbsp; \u00c9 esta a imagem que os irm\u00e3os Silvio e Luciano Meira usam para descrever o impacto da intelig\u00eancia artificial na educa\u00e7\u00e3o brasileira, em um conciso e importante documento cujo t\u00edtulo j\u00e1 diz tudo&nbsp; (<em>Intelig\u00eancia Artificial na Educa\u00e7\u00e3o: Ruptura Paradigm\u00e1tica em um Sistema em Crise Cr\u00f4nica<\/em>, Recife, tds.company, 2025).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cRuptura Paradigm\u00e1tica\u201d \u00e9 um termo complicado para descrever uma situa\u00e7\u00e3o em que, daqui por diante, tudo ser\u00e1 diferente. Os sistemas educacionais, com suas escolas e universidades, foram criados como institui\u00e7\u00f5es destinadas a transmitir conhecimentos, de forma semelhante aos sistemas fabris inventados s\u00e9culos atr\u00e1s, em que as pessoas s\u00e3o agrupadas em turmas homog\u00eaneas e trabalham para incorporar pacotes de conhecimento organizados por especialidade e n\u00edvel de dificuldade. O que a intelig\u00eancia artificial faz \u00e9 tornar todos estes conte\u00fados misturados e facilmente acess\u00edveis, de forma quase imediata e a um custo m\u00ednimo para o usu\u00e1rio.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em certo sentido, os sistemas de IA s\u00e3o como os antigos dicion\u00e1rios, enciclop\u00e9dias e manuais, que colocavam os conhecimentos \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o de quem sabia pesquis\u00e1-los.&nbsp; Um advogado, por exemplo, n\u00e3o precisa memorizar todas as leis e jurisprud\u00eancia em sua \u00e1rea de especialidade, mas deve ter uma mapa mental dos principais textos legais e dos princ\u00edpios que inspiraram sua constru\u00e7\u00e3o, de tal forma que ele saiba buscar, em cada situa\u00e7\u00e3o, as leis que se aplicam, os recursos que pode dispor, e como organizar os argumentos, conhecimentos e informa\u00e7\u00f5es para cada situa\u00e7\u00e3o. Com os modelos de linguagem da intelig\u00eancia artificial, ele pode perguntar que leis se aplicam a cada caso, quais os princ\u00edpios gerais ou filosofias jur\u00eddicas que embasam estas leis, se existem controv\u00e9rsias na jurisprud\u00eancia, quais as melhores linhas de defesa para seus clientes, pedir que tudo isto seja condensado na forma de uma peti\u00e7\u00e3o ou arrazoado legal, e ter a resposta detalhada e pronta em alguns segundos. Isso vale para uma engenheira que precisa projetar uma ponte, ou uma decoradora que precisa mobiliar uma casa: basta saber pedir e o projeto j\u00e1 vem pronto, ou quase.&nbsp; E nem precisa fazer a pergunta por escrito:&nbsp; \u00e9 s\u00f3 dizer o que se quer, em qualquer l\u00edngua, que o modelo transcreve, redige de forma correta, e traduz da l\u00edngua que for. No limite, nem saber escrever \u00e9 necess\u00e1rio. Ser\u00e1 preciso ainda&nbsp; ser um advogado, engenheiro ou decorador formado em cinco anos para fazer estas coisas, j\u00e1 que o conhecimento agora \u00e9 uma \u201ccommodity\u201d barata e acess\u00edvel a qualquer um?&nbsp; &nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Uma resposta frequente, mas equivocada, \u00e9 dizer que a educa\u00e7\u00e3o deve se preocupar agora com as compet\u00eancias, e n\u00e3o mais com o conte\u00fado dos conhecimentos. Ocorre que n\u00e3o existem compet\u00eancias sem conte\u00fados.&nbsp; Quando nossos av\u00f3s decoravam poesias ou repetiam exerc\u00edcios de matem\u00e1tica, eles adquiriam ao mesmo tempo as compet\u00eancias e os conhecimentos de literatura, linguagem e sistemas num\u00e9ricos.&nbsp; Um poss\u00edvel caminho, indicado no livro dos irm\u00e3os Meira, \u00e9 o aprendizado baseado em problemas e projetos, em que as pessoas aprendem a fazer perguntas importantes e avaliar as respostas dadas pelos sistemas de Intelig\u00eancia artificial, que muitas vezes podem se perder em alucina\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas ainda n\u00e3o sabemos bem como fazer isto, e n\u00e3o h\u00e1 consenso sobre o impacto que a intelig\u00eancia artificial ter\u00e1. Nossas escolas e universidades, que mal conseguem fazer o feij\u00e3o com arroz da forma\u00e7\u00e3o b\u00e1sica, j\u00e1 precisam dar meia volta e procurar novos caminhos para formar para um sistema de profiss\u00f5es e um mercado de trabalho que ningu\u00e9m sabe como ser\u00e1. Silvio e Luciano Meira, em seu texto, prop\u00f5em o que denominam de uma \u201cestrat\u00e9gia proativa e soberana\u201d&nbsp; para enfrentar o desafio, ao longo de&nbsp; quatro grandes eixos:&nbsp; 1) requalifica\u00e7\u00e3o e empoderamento docente no uso das novas tecnologias; 2) reforma curricular e avaliativa radical, com \u00eanfase em compet\u00eancias; 3) cria\u00e7\u00e3o de uma infraestrutura p\u00fablica de IA para a educa\u00e7\u00e3o; e 4) governan\u00e7a \u00e9tica e fomento \u00e0 pesquisa.&nbsp; S\u00e3o propostas importantes, com desdobramentos que merecem ser vistos no detalhe. No entanto, n\u00e3o d\u00e1 para ser muito otimista, com tantos cisnes de tantas cores que temos pela frente, e o fracasso de tantos planos nacionais e estrat\u00e9gias de longo prazo. O mais realista parece ser aprender com os erros da pol\u00edtica nacional de inform\u00e1tica de meio s\u00e9culo atr\u00e1s e dar prioridade desde logo ao aprendizado no uso dos novos recursos tecnol\u00f3gicos que est\u00e3o surgindo, por quem tiver condi\u00e7\u00f5es de tomar a iniciativa e servir de exemplo para os demais.&nbsp; De baixo para cima, sem barreiras e sem esperar que a grande estrat\u00e9gia nacional e soberana se materialize.<\/p>\n<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>(Publicado em O Estado de S\u00e3o Paulo, 8 de agosto de 2025) Cisnes negros, na imagem criada por Nassim Taleb (The Black Swan: The Impact of the Highly Improbable. Random House, 2007), s\u00e3o fen\u00f4menos inesperados, como uma crise financeira ou a pandemia do Covid, que for\u00e7am pessoas, empresas e institui\u00e7\u00f5es a buscar novos caminhos. Cisnes &hellip; <a href=\"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/o-cisne-vermelho\/\" class=\"more-link\">Continue reading<span class=\"screen-reader-text\"> &#8220;O Cisne Vermelho&#8221;<\/span><\/a><!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on get_the_excerpt --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on get_the_excerpt --><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_crdt_document":"","footnotes":""},"categories":[22,19],"tags":[],"class_list":["post-7651","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-educacao","category-geral"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7651","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=7651"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7651\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":7653,"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7651\/revisions\/7653"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=7651"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=7651"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=7651"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}