{"id":7659,"date":"2025-09-12T06:05:14","date_gmt":"2025-09-12T09:05:14","guid":{"rendered":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/?p=7659"},"modified":"2025-09-12T11:15:55","modified_gmt":"2025-09-12T14:15:55","slug":"as-duas-americas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/as-duas-americas\/","title":{"rendered":"As duas Am\u00e9ricas"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">(Publicado em <em>O Estado de S\u00e3o Paulo<\/em>, 12 de setembro de 2025)<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No Brasil \u00e9 comum olhar para os Estados Unidos como um exemplo que dever\u00edamos seguir, ainda que sabendo muito bem de seus problemas. Al\u00e9m de desenvolvido, \u00e9 &#8211; ou era, at\u00e9 Donald Trump &#8211; um lugar onde imperavam as leis, as institui\u00e7\u00f5es eram respeitadas, a economia era din\u00e2mica, a ci\u00eancia e a educa\u00e7\u00e3o eram estimuladas, existiam pol\u00edticas para lidar com os problemas de desigualdade e pobreza, e, na pol\u00edtica internacional, procurava combinar o interesse pr\u00f3prio com pol\u00edticas de coopera\u00e7\u00e3o e apoio a valores como a democracia e os direitos humanos. Destes valores, o \u00fanico que parece ainda valer para Trump \u00e9 o do dinheiro, cada vez mais concentrado. Em seu livro \u00a0recente sobre a hist\u00f3ria das rela\u00e7\u00f5es entre os Estados Unidos e Am\u00e9rica Latina\u00a0 (<em>America, Am\u00e9rica \u2013 A New History of the New World<\/em>, Penguin, 2025), o historiador Greg Grandin procura mostrar que, longe de ser uma anomalia, as pol\u00edticas de Trump\u00a0 d\u00e3o continuidade a uma longa hist\u00f3ria de viol\u00eancia interna e imperialismo. A \u00fanica exce\u00e7\u00e3o teria sido o per\u00edodo que vai do in\u00edcio do <em>New Deal <\/em>de Franklin Roosevelt, em 1933, at\u00e9 o fim da Segunda Guerra, quando os Estados Unidos, gra\u00e7as \u00e0 influ\u00eancia da Am\u00e9rica Latina, desenvolve pol\u00edticas internas em favor da popula\u00e7\u00e3o mais necessitada e apoia a cria\u00e7\u00e3o \u00a0de uma nova ordem internacional com as Na\u00e7\u00f5es Unidas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para Grandin, ao inv\u00e9s de olharmos para o Norte como modelo, eles \u00e9 que deveriam aprender conosco. Tanto os pa\u00edses da Am\u00e9rica do Sul quanto do Norte foram formados atrav\u00e9s de um terr\u00edvel processo  de escraviza\u00e7\u00e3o ou exterm\u00ednio das popula\u00e7\u00f5es locais, mas os latinos teriam tido uma vantagem moral, que era o reconhecimento, por parte de religiosos como&nbsp; Bartolom\u00e9 de Las Casas, que os ind\u00edgenas eram seres humanos com direitos a serem respeitados, o que os ingleses n\u00e3o aceitavam. Gra\u00e7as a isto, os latinos teriam organizado sociedades complexas e inclusivas, ainda que fortemente hierarquizadas, enquanto os Estados Unidos levavam ao extremo as pol\u00edticas de genoc\u00eddio da popula\u00e7\u00e3o nativa e discrimina\u00e7\u00e3o racial. &nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mais tarde, nos anos da independ\u00eancia, Simon Bol\u00edvar defendeu o direito&nbsp; das novas na\u00e7\u00f5es \u00e0 autonomia e, cada vez mais, \u00e0 conviv\u00eancia pac\u00edfica de acordo com um novo direito internacional, no\u00e7\u00f5es que acabaram sendo incorporadas, em parte, na carta das Na\u00e7\u00f5es Unidas (a doutrina de Monroe de 1823, interpretada muitas vezes como o embri\u00e3o de um sistema de coopera\u00e7\u00e3o internacional, teria sido na verdade uma manifesta\u00e7\u00e3o da pretens\u00e3o de dom\u00ednio norte-americano sobre a regi\u00e3o, em oposi\u00e7\u00e3o \u00e0s pot\u00eancias europeias). Teria sido na Am\u00e9rica Latina, tamb\u00e9m, e sobretudo com a revolu\u00e7\u00e3o mexicana, que surgiram e se desenvolveram as ideias dos direitos e pol\u00edticas sociais na regi\u00e3o, incluindo o da reforma agr\u00e1ria, muitas das quais aceitas e incorporadas \u00e0s pol\u00edticas americanas do <em>New Deal.<\/em> <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quando, com a guerra fria, os Estados Unidos decidem investir pesadamente na reconstru\u00e7\u00e3o da Europa atrav\u00e9s do Plano Marshall, eles deixam para tr\u00e1s a \u201cpol\u00edtica de boa vizinhan\u00e7a\u201d de coopera\u00e7\u00e3o com os pa\u00edses da regi\u00e3o, apesar dos protestos de empres\u00e1rios como o brasileiro Roberto Simonsen. Reduzidos \u00e0 condi\u00e7\u00e3o de exportadores de mat\u00e9rias primas,&nbsp; os pa\u00edses latino americanos ficam condenados ao subdesenvolvimento, como teria sido &nbsp;demostrado pelos trabalhos de Raul Prebisch,&nbsp; da CEPAL no Chile, e dos outros autores que desenvolveram a chamada \u201cteoria da depend\u00eancia\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">H\u00e1 muito o que aprender nas quase 800 p\u00e1ginas deste livro, mas me parece que a \u00eanfase nas doutrinas e nas rela\u00e7\u00f5es internacionais acaba levando a um entendimento distorcido tanto da realidade da Am\u00e9rica Latina quanto \u00e0 dos Estados Unidos. \u00c9 na maneira pela qual as sociedades se constituem e funcionam internamente, mais do que nas rela\u00e7\u00f5es que mant\u00eam com o exterior ou as doutrinas de alguns de seus pol\u00edticos e intelectuais, que devem ser buscadas as explica\u00e7\u00f5es de seus sucessos e fracassos. N\u00e3o \u00e9 que o imperialismo norte-americano n\u00e3o tenha existido e que muitos pa\u00edses, na Am\u00e9rica Latina e outras partes, n\u00e3o tenham sofrido com suas manifesta\u00e7\u00f5es mais truculentas. Mas os Estados Unidos sempre foram um pa\u00eds voltado sobretudo para seu interior, receptivo aos imigrantes, parecido, neste aspecto, com o Brasil, que ali\u00e1s aparece pouco no livro.&nbsp; O processo de ocupa\u00e7\u00e3o da Am\u00e9rica Latina, atrav\u00e9s de <em>plantations<\/em> e grandes empreendimentos comerciais associados aos imp\u00e9rios portugu\u00eas e espanhol, com grande concentra\u00e7\u00e3o de riqueza nas m\u00e3os de poucos, foi muito diferente do norte-americano, baseado em colonos que se instalavam e se organizavam com autonomia.&nbsp; <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas o passado n\u00e3o \u00e9 destino, e alguns pa\u00edses e regi\u00f5es, mais do que outros, conseguiram se constituir em sociedades mais democr\u00e1ticas e capazes de gerir seu pr\u00f3prio destino, enquanto outras mal conseguem sair do c\u00edrculo vicioso do autoritarismo e da estagna\u00e7\u00e3o. Apesar dos exageros, n\u00e3o h\u00e1 como n\u00e3o concordar com Grandin quanto \u00e0 import\u00e2ncia de valores como igualdade, direitos sociais e respeito \u00e0 autonomia dos pa\u00edses em administrar seus pr\u00f3prios interesses, sem falar na valoriza\u00e7\u00e3o dos princ\u00edpios e procedimentos legais.&nbsp; Felizmente, estes valores existem e persistem nas duas Am\u00e9ricas, com boa chance de voltarem a prevalecer.<\/p>\n<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>(Publicado em O Estado de S\u00e3o Paulo, 12 de setembro de 2025) No Brasil \u00e9 comum olhar para os Estados Unidos como um exemplo que dever\u00edamos seguir, ainda que sabendo muito bem de seus problemas. 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