{"id":7695,"date":"2025-11-14T05:27:22","date_gmt":"2025-11-14T08:27:22","guid":{"rendered":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/?p=7695"},"modified":"2025-12-10T06:49:56","modified_gmt":"2025-12-10T09:49:56","slug":"o-legado-de-ruth-cardoso","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/o-legado-de-ruth-cardoso\/","title":{"rendered":"O legado de Ruth Cardoso"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">(Publicado em <em>O Estado de S\u00e3o Paulo, <\/em>14 de novembro de 2025)<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O livro <em><a href=\"https:\/\/fundacaofhc.org.br\/publicacao\/comunidade-solidaria-memoria-e-legado-homenagem-a-ruth-cardoso\/\">Comunidade Solid\u00e1ria: mem\u00f3ria e legado \u2013 homenagem a Ruth Cardoso, <\/a><\/em>publicado pela Funda\u00e7\u00e3o Fernando Henrique Cardoso, \u00e9 importante n\u00e3o s\u00f3 pela homenagem e registro que fica, como tamb\u00e9m por chamar a aten\u00e7\u00e3o para um momento importante&nbsp; de inflex\u00e3o na hist\u00f3ria das pol\u00edticas sociais brasileiras. Professora de antropologia da Universidade de S\u00e3o Paulo desde a d\u00e9cada de 50, casada com seu colega Fernando Henrique, Ruth se v\u00ea, em 1995, al\u00e7ada subitamente \u00e0 situa\u00e7\u00e3o de \u201cprimeira-dama\u201d, cujo lado cerimonial procurava evitar, sem com isto deixar de estar ao lado do marido e buscar um lugar pr\u00f3prio de atua\u00e7\u00e3o conforme suas pr\u00f3prias ideias.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ruth e Fernando Henrique Cardoso vinham ambos de uma tradi\u00e7\u00e3o de compromisso com as quest\u00f5es sociais, mas por caminhos distintos. Aluno de Florestan Fernandes e Roger Bastide, a tese de doutorado de Fernando Henrique foi sobre o negro na sociedade escravocrata do Rio Grande do Sul, em que combinava o olhar antropol\u00f3gico sobre a popula\u00e7\u00e3o escravizada com a interpreta\u00e7\u00e3o cr\u00edtica marxista do capitalismo.&nbsp; Seu envolvimento com as quest\u00f5es sociais leva \u00e0 persegui\u00e7\u00e3o pelo governo militar, e, no final dos anos 60, no ex\u00edlio, se torna c\u00e9lebre com o livro sobre <em>Depend\u00eancia e Desenvolvimento na Am\u00e9rica Latina, <\/em>em que interpreta os problemas de pobreza e subdesenvolvimento como consequ\u00eancias das assimetrias do sistema capitalista internacional.&nbsp;No final dos anos 70 come\u00e7a sua carreira pol\u00edtica em defesa da democracia, tornando-se, depois, o Presidente do Plano Real, respons\u00e1vel pelo fim da infla\u00e7\u00e3o e moderniza\u00e7\u00e3o da economia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 um governo social-democrata com resultados significativos na \u00e1rea social, como a universaliza\u00e7\u00e3o da educa\u00e7\u00e3o b\u00e1sica, liderada por Paulo Renato de Souza, e a consolida\u00e7\u00e3o do sistema de \u00fanico de sa\u00fade, sob Jos\u00e9 Serra, al\u00e9m de dar in\u00edcio \u00e0s pol\u00edticas de bolsa escola e colocar na agenda&nbsp; p\u00fablica os temas da desigualdade racial e dos direitos humanos. Mas a agenda econ\u00f4mica tem prioridade, e lhe falta uma pol\u00edtica de inclus\u00e3o mais ampla, voltada para o atendimento aos milh\u00f5es que se aglomeravam nas grandes cidades ou buscavam sair da situa\u00e7\u00e3o de pobreza e estagna\u00e7\u00e3o do campo. As pol\u00edticas assistenciais que havia at\u00e9 ent\u00e3o&nbsp; eram, ou o sistema sindical e previdenci\u00e1rio criado por Get\u00falio Vargas, que beneficiava uma pequena parcela da popula\u00e7\u00e3o urbana e era controlado pelos &nbsp;\u201cpelegos\u201d profissionais, ou as redes de caridade e assist\u00eancia social administradas pela Igreja Cat\u00f3lica e l\u00edderes m\u00edsticos como a Legi\u00e3o da Boa Vontade. O que colocar em seu lugar?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ruth Cardoso tem uma resposta, que vem dos estudos antropol\u00f3gicos da vida quotidiana dos imigrantes que chegam \u00e0s grandes cidades, dela e de colegas e contempor\u00e2neas como Eunice Durham, Maria Sylvia de Carvalho Franco e outras, quase todas,&nbsp; significativamente, mulheres. Longe do Estado e das redes assistenciais, elas estudam como as popula\u00e7\u00f5es mais pobres se organizam, estruturam suas comunidades, mandam seus filhos para as escolas, e se apoiam mutuamente. para participar de forma ativa e produtiva das oportunidades que eram criadas pela economia que se modernizava. Havia no pa\u00eds uma cultura de raiz e uma popula\u00e7\u00e3o ativa que precisava somente apoio e est\u00edmulo para tomar seu destino nas pr\u00f3prias m\u00e3os \u2013 a comunidade solid\u00e1ria, estimulando o voluntariado e criando condi\u00e7\u00f5es para a mobiliza\u00e7\u00e3o e organiza\u00e7\u00e3o das popula\u00e7\u00f5es locais. \u00c9 a isto que Ruth se dedica, fora da estrutura do Estado mas se valendo dos recursos que conseguia mobilizar pelo lugar especial que ocupava.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e3o foram somente as antrop\u00f3logas que viram isto.\u00a0 O viram tamb\u00e9m a parte da Igreja Cat\u00f3lica das comunidades eclesiais\u00a0 de base e as in\u00fameras seitas evang\u00e9lcas que se espalhavam pelo pa\u00eds. Viu tamb\u00e9m o Partido dos Trabalhadores, que se transforma, de um movimento sindicalista independente que havia surgido por oposi\u00e7\u00e3o ao clientelismo varguista, em um grande partido que se junta aos movimentos comunit\u00e1rios e chega ao governo com uma plataforma difusa de defesa dos pobres, que aos poucos se consolida em uma pol\u00edtica assistencialista que n\u00e3o para de crescer, tomando para si e ampliando o poder e os v\u00edcios do antigo trabalhismo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Entre bolsas, aposentadorias e pens\u00f5es, milh\u00f5es passam a depender de subs\u00eddios do governo, que se estendem tamb\u00e9m para o funcionalismo p\u00fablico, as classes m\u00e9dias, os partidos pol\u00edticos e grandes grupos de interesse. O suficiente para ganhar elei\u00e7\u00f5es, mas n\u00e3o para manter a economia crescendo, investir em pol\u00edticas p\u00fablicas de qualidade, reduzir efetivamente a desigualdade e incorporar setores inteiros da popula\u00e7\u00e3o que continuam \u00e0 margem, atra\u00eddos pelas religi\u00f5es messi\u00e2nicas e envolvidos na malha da economia clandestina das grandes periferias urbanas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Hoje, com cerca de metade \u00a0da popula\u00e7\u00e3o e da economia dependentes do governo e mais recursos comprometidos com estes gastos do que a capacidade da economia brasileira de produzi-los, parece certo que este modelo de estado protetor e clientelista est\u00e1 chegando a seu limite. Em seu lugar n\u00e3o vir\u00e1, certamente, o estado m\u00ednimo do liberalismo extremo, mas uma nova configura\u00e7\u00e3o em que os valores das pol\u00edticas p\u00fablicas de qualidade,  solidariedade e autonomia da sociedade sejam novamente valorizados, como queria Ruth Cardoso.<\/p>\n<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>(Publicado em O Estado de S\u00e3o Paulo, 14 de novembro de 2025) O livro Comunidade Solid\u00e1ria: mem\u00f3ria e legado \u2013 homenagem a Ruth Cardoso, publicado pela Funda\u00e7\u00e3o Fernando Henrique Cardoso, \u00e9 importante n\u00e3o s\u00f3 pela homenagem e registro que fica, como tamb\u00e9m por chamar a aten\u00e7\u00e3o para um momento importante&nbsp; de inflex\u00e3o na hist\u00f3ria das &hellip; <a href=\"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/o-legado-de-ruth-cardoso\/\" class=\"more-link\">Continue reading<span class=\"screen-reader-text\"> &#8220;O legado de Ruth Cardoso&#8221;<\/span><\/a><!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on get_the_excerpt --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on get_the_excerpt --><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_crdt_document":"","footnotes":""},"categories":[56,8],"tags":[],"class_list":["post-7695","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-historia","category-politica-social"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7695","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=7695"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7695\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":7703,"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7695\/revisions\/7703"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=7695"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=7695"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=7695"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}