{"id":7705,"date":"2025-12-12T07:06:40","date_gmt":"2025-12-12T10:06:40","guid":{"rendered":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/?p=7705"},"modified":"2025-12-12T07:06:48","modified_gmt":"2025-12-12T10:06:48","slug":"tres-anos-perdidos-da-juventude","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/tres-anos-perdidos-da-juventude\/","title":{"rendered":"Tr\u00eas anos perdidos da juventude"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">(Publicado em <em>O Estado de S\u00e3o Paulo,<\/em> 11 de dezembro de 2025)<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Novembro foi &nbsp;o m\u00eas do ENEM, com quase cinco milh\u00f5es de participantes, coincidindo com o an\u00fancio recente do Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o de que a partir do ano que vem a prova vai ser utilizada para avaliar o ensino m\u00e9dio como um todo. \u00c9 uma volta&nbsp; \u00e0 ideia inicial de quando o exame foi criado em 1998,&nbsp; com a grande diferen\u00e7a que, agora, ele \u00e9 sobretudo um grande vestibular nacional para as universidades p\u00fablicas e, portanto, uma prova de alto impacto. Mais um passo no engessamento do ensino m\u00e9dio, contra a no\u00e7\u00e3o de que ele deveria ser o lugar da pluralidade de caminhos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No resto do mundo, este tipo de\u00a0 avalia\u00e7\u00e3o se faz ao final da educa\u00e7\u00e3o fundamental, aos 15-16 anos, e n\u00e3o ao final da educa\u00e7\u00e3o m\u00e9dia, aos 17-18. Ocorre que, no Brasil, existe muita informa\u00e7\u00e3o, discuss\u00e3o\u00a0 e propostas sobre o que acontece nas duas pontas da educa\u00e7\u00e3o b\u00e1sica, aos seis aos dezessete anos, assim como com a educa\u00e7\u00e3o infantil, mas pouco se fala sobre o que ocorre no meio, aos quinze anos, quando os jovens deveriam estar concluindo a educa\u00e7\u00e3o fundamental. O Fundamental II \u00a0\u00e9 o patinho feio da educa\u00e7\u00e3o brasileira, com a diferen\u00e7a\u00a0 de que n\u00e3o se sabe se um dia vai se tornar cisne.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O problema se v\u00ea com clareza quando se olha para os resultados do SAEB, que \u00e9 o sistema de avalia\u00e7\u00e3o da qualidade da educa\u00e7\u00e3o adotado no Brasil desde os anos 90. Bem ou mal, temos tido progresso ao final do Fundamental I, na quinta s\u00e9rie, mas os resultados continuam p\u00e9ssimos e n\u00e3o se alteram ao final Fundamental II, e isto repercute no ensino m\u00e9dio que tamb\u00e9m n\u00e3o sai do lugar, apesar do volume crescente de dinheiro investido em educa\u00e7\u00e3o ao longo dos anos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para entender o que est\u00e1 acontecendo, vale a pena lembrar da reforma do ensino de 1971 que acabou com a antiga divis\u00e3o entre a escola prim\u00e1ria e o curso ginasial. At\u00e9 ent\u00e3o, a ideia era que o prim\u00e1rio de quatro anos deveria ser para todos, mas o gin\u00e1sio\u00a0 de mais quatro e o que vinha depois era para os poucos que conseguiam passar no exame de admiss\u00e3o, uma prova aos 11 anos que obedecia\u00a0 a um padr\u00e3o nacional. A reforma acabou com o exame, juntou o\u00a0 prim\u00e1rio e o ginasial em um curso fundamental de 8 e depois 9 anos, \u00a0e com isto facilitou o acesso dos estudantes at\u00e9 o fim do novo ciclo. O que a reforma n\u00e3o fez foi integrar de fato os dois ciclos antigos, que continuam a existir de forma separada at\u00e9 hoje.\u00a0 Na antiga escola prim\u00e1ria, hoje Fundamental I, cada turma de alunos tem uma professora, respons\u00e1vel por todo\u00a0 o ensino e pessoa de refer\u00eancia para os alunos. Quando o estudante entra no Fundamental II, o antigo gin\u00e1sio, a professora de refer\u00eancia desaparece, e ele fica geralmente \u00e0 merc\u00ea de v\u00e1rios professores especialistas que mal se comunicam entre si. Ele tem que achar seu caminho sozinho, justamente quando, aos 11 ou 12 anos, come\u00e7a a entrar na adolesc\u00eancia, e as quest\u00f5es de identidade e grupos de pertencimento se tornam primordiais. N\u00e3o \u00e9 surpreendente que, nessa passagem, o v\u00ednculo que poderia ter estabelecido com a vida escolar muitas vezes se deteriore.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 justamente nesta etapa que os estudantes deveriam completar sua educa\u00e7\u00e3o b\u00e1sica, adquirindo flu\u00eancia em leitura, escrita, racioc\u00ednio matem\u00e1tico e conceitos b\u00e1sicos de ci\u00eancias naturais, sociais e humanas. \u00c9 por isto que\u00a0 o exame internacional da educa\u00e7\u00e3o da OECD, o PISA, se aplica a estudantes que est\u00e3o terminando esta etapa, e que tantos pa\u00edses realizam exames nacionais de avalia\u00e7\u00e3o a esta idade, seja para fins de diagn\u00f3stico, seja para encaminhar os estudantes para diferentes itiner\u00e1rios de forma\u00e7\u00e3o. Na Inglaterra, por exemplo, existe o exame geral de certifica\u00e7\u00e3o secund\u00e1ria (GCSE) aos 15-16 anos, e a partir da\u00ed, se quiserem continuar estudando, os estudantes se aprofundam em tr\u00eas ou quatro mat\u00e9rias em dois anos como prepara\u00e7\u00e3o para a admiss\u00e3o aos cursos superiores ou se preparam para carreiras t\u00e9cnicas profissionais.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O que o Brasil fez, em vez disto, foi esquecer do fundamental II e adiar por tr\u00eas anos a forma\u00e7\u00e3o b\u00e1sica que deveria ter sido completada na educa\u00e7\u00e3o fundamental. Assim, a escolaridade obrigat\u00f3ria vai at\u00e9 os 17 anos, quando na grande maioria dos pa\u00edses da Europa termina aos 15. \u00c9 por isto que h\u00e1 tanta resist\u00eancia \u00e0s propostas de diversifica\u00e7\u00e3o dos cursos do ensino m\u00e9dio e do ENEM.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e3o h\u00e1 receitas simples para embelezar o patinho feio, mas uma coisa que poderia ser feita desde logo seria criar um exame nacional de desempenho exigente ao final do ensino fundamental, o ENEF, e n\u00e3o ao final do ensino m\u00e9dio como est\u00e1 sendo planejado.&nbsp; Este sim deveria ser um exame \u00fanico, servindo de padr\u00e3o de refer\u00eancia e orienta\u00e7\u00e3o tanto para as escolas quanto para os estudantes. Assim como hoje o ENEM pauta o ensino m\u00e9dio, o ENEF deveria pautar o ensino fundamental II, com muito mais for\u00e7a do que os prolixos par\u00e2metros curriculares do Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o. Isto permitiria que o pa\u00eds deixasse de desperdi\u00e7ar tr\u00eas anos da vida de seus jovens e abrisse espa\u00e7o para que eles, a partir dos 15 anos, fossem autorizados a buscar seus caminhos dentro de um sistema escolar plural, tal como j\u00e1 o fazem na vida privada.<\/p>\n<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>(Publicado em O Estado de S\u00e3o Paulo, 11 de dezembro de 2025) Novembro foi &nbsp;o m\u00eas do ENEM, com quase cinco milh\u00f5es de participantes, coincidindo com o an\u00fancio recente do Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o de que a partir do ano que vem a prova vai ser utilizada para avaliar o ensino m\u00e9dio como um todo. \u00c9 &hellip; <a href=\"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/tres-anos-perdidos-da-juventude\/\" class=\"more-link\">Continue reading<span class=\"screen-reader-text\"> &#8220;Tr\u00eas anos perdidos da juventude&#8221;<\/span><\/a><!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on get_the_excerpt --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on get_the_excerpt --><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_crdt_document":"","footnotes":""},"categories":[22,7],"tags":[],"class_list":["post-7705","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-educacao","category-educacao-basica"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7705","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=7705"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7705\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":7706,"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7705\/revisions\/7706"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=7705"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=7705"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=7705"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}