{"id":7713,"date":"2026-02-13T06:10:59","date_gmt":"2026-02-13T09:10:59","guid":{"rendered":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/?p=7713"},"modified":"2026-02-13T06:11:31","modified_gmt":"2026-02-13T09:11:31","slug":"a-medicina-pela-porta-dos-fundos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/a-medicina-pela-porta-dos-fundos\/","title":{"rendered":"A medicina pela porta dos fundos"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">(Publicado em <em>O Estado de S\u00e3o Paulo<\/em>, 13 de fevereiro de 2026)<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O Brasil tem poucos m\u00e9dicos por habitante, a profiss\u00e3o m\u00e9dica est\u00e1 entre as  que mais rendem e o acesso aos cursos de medicina \u00e9 extremamente seletivo. Em vez de enfrentar diretamente o descompasso entre demanda, forma\u00e7\u00e3o e organiza\u00e7\u00e3o do sistema de sa\u00fade, o pa\u00eds tem apostado em exames e barreiras formais para regular a profiss\u00e3o. Ao estreitar a porta da frente, o sistema empurra milhares de profissionais para a porta dos fundos, por meio de atalhos que n\u00e3o garantem melhor forma\u00e7\u00e3o nem melhor atendimento \u00e0 popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Cursar medicina em uma universidade p\u00fablica exige notas alt\u00edssimas no Enem, acess\u00edveis a poucos. No setor privado, as mensalidades podem ultrapassar R$ 10 mil. Vendo nisso uma oportunidade, universidades privadas ampliaram rapidamente a oferta de vagas nos \u00faltimos anos, enquanto milhares de brasileiros buscam cursos de medicina na Argentina, Bol\u00edvia e&nbsp; Paraguai, onde floresce uma verdadeira ind\u00fastria voltada ao p\u00fablico brasileiro. Em 2024, havia cerca de 284 mil estudantes de medicina no pa\u00eds, 73% em institui\u00e7\u00f5es privadas. Outros 65 mil, ao que tudo indica, estudavam no exterior.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">M\u00e9dicos tendem a permanecer nas cidades e regi\u00f5es mais ricas, de onde em geral prov\u00eam. Para atender popula\u00e7\u00f5es mais pobres e \u00e1reas remotas, o governo criou o programa Mais M\u00e9dicos, que permite ao Sistema Unificado de Sa\u00fade &#8211;&nbsp; SUS &#8211; contratar profissionais formados no exterior. Para atuar fora do SUS, esses m\u00e9dicos precisam passar pelo Revalida, exame que nos \u00faltimos anos aprovou apenas cerca de 20% dos candidatos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 nesse contexto que surge a proposta de cria\u00e7\u00e3o do Exame Nacional de Profici\u00eancia em Medicina (Profimed), apoiada pelo Conselho Federal de Medicina, nos moldes do exame da OAB, em tramita\u00e7\u00e3o no Congresso. Na disputa para ver quem vai controlar a forma\u00e7\u00e3o m\u00e9dica, o Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o criou em 2025 um exame nacional para os concluintes dos cursos de medicina, o Enamed, que classifica os cursos existentes em cinco categorias conforme a percentagem de estudantes aprovados em uma prova de m\u00faltipla escolha, e anuncia medidas preventivas, indo at\u00e9 o fechamento, para os cursos mal classificados. Preocupadas com a maneira a\u00e7odada&nbsp; com que o MEC implantou o Enamed, e com o impacto da divulga\u00e7\u00e3o de maus resultados na reputa\u00e7\u00e3o e mesmo sobreviv\u00eancia de muitos de seus cursos, institui\u00e7\u00f5es do setor privado tentaram postergar esta divulga\u00e7\u00e3o, mas o Ministro tinha pressa e tornou os resultados p\u00fablicos. V\u00e1rios institui\u00e7\u00f5es entraram na justi\u00e7a contestando o Enamed, que no entanto tem sido mantido.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Tendo visto mais de perto como o Enamed foi implantado em 2025, n\u00e3o tenho d\u00favida de que teria sido mais prudente trat\u00e1-lo como uma experi\u00eancia piloto, capaz de informar um sistema de avalia\u00e7\u00e3o mais s\u00f3lido nos anos seguintes. Mas o problema \u00e9 mais profundo. Nem o Enamed nem o Profimed respondem adequadamente \u00e0 quest\u00e3o central: n\u00e3o se trata apenas de definir a qualifica\u00e7\u00e3o que \u201co m\u00e9dico\u201d deve saber para atender \u201co paciente\u201d, ambos em abstrato, mas identificar quantos e que tipos de profissionais de sa\u00fade s\u00e3o necess\u00e1rios para atender milh\u00f5es de pessoas em condi\u00e7\u00f5es e contextos muito diversos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Grande parte dos atendimentos em sa\u00fade \u00e9 relativamente simples e pode ser realizada por profissionais com forma\u00e7\u00e3o mais delimitada, desde que apoiados por protocolos claros, sistemas de refer\u00eancia eficientes e novas tecnologias de informa\u00e7\u00e3o. As novas tecnologias, ao mesmo tempo em que desenvolvem procedimentos e medica\u00e7\u00f5es de alta complexidade e custo, colocam tamb\u00e9m nas m\u00e3os dos profissionais informa\u00e7\u00f5es e orienta\u00e7\u00f5es que simplificam e melhoram&nbsp; o atendimento rotineiro.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Dados da PNAD Cont\u00ednua indicam que o Brasil conta hoje com cerca de 5,7 milh\u00f5es de profissionais da sa\u00fade, metade deles com n\u00edvel superior, incluindo aproximadamente 403 mil m\u00e9dicos que se declaram especialistas e 214 mil m\u00e9dicos gerais. O desafio n\u00e3o \u00e9 apenas formar mais m\u00e9dicos, mas avan\u00e7ar para um sistema muito mais diversificado de forma\u00e7\u00e3o, qualifica\u00e7\u00e3o e certifica\u00e7\u00e3o de profissionais de sa\u00fade. Isso implica permitir que enfermeiros, parteiras, fisioterapeutas e outros profissionais assumam responsabilidades compat\u00edveis com sua forma\u00e7\u00e3o, inclusive na prescri\u00e7\u00e3o de medicamentos de uso corrente, e tornar mais claras as diferen\u00e7as entre distintos tipos de m\u00e9dicos, com n\u00edveis variados de forma\u00e7\u00e3o e especializa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Esse caminho n\u00e3o passa por um controle centralizado do Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o, nem por um ename nacional \u00fanico para os formados, mas por um sistema m\u00faltiplo de certifica\u00e7\u00f5es profissionais, semelhante ao que j\u00e1 ocorre com especialidades m\u00e9dicas, estendido tamb\u00e9m \u00e0s fun\u00e7\u00f5es voltadas ao atendimento b\u00e1sico. Com certifica\u00e7\u00f5es bem definidas, cursos e institui\u00e7\u00f5es tendem a se ajustar com mais rapidez e efic\u00e1cia do que sob o peso de regula\u00e7\u00f5es burocr\u00e1ticas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O caminho para melhorar a forma\u00e7\u00e3o e o atendimento em sa\u00fade n\u00e3o \u00e9 embelezar e estreitar a porta da frente e fazer com que tantos busquem as portas dos fundos. \u00c9 abrir caminhos institucionais mais inteligentes, coerentes com as necessidades do sistema de sa\u00fade, com os avan\u00e7os da tecnologia e com os recursos humanos que o pa\u00eds j\u00e1 possui e tem condi\u00e7\u00f5es de formar.<\/p>\n<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>(Publicado em O Estado de S\u00e3o Paulo, 13 de fevereiro de 2026) O Brasil tem poucos m\u00e9dicos por habitante, a profiss\u00e3o m\u00e9dica est\u00e1 entre as que mais rendem e o acesso aos cursos de medicina \u00e9 extremamente seletivo. 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