{"id":7723,"date":"2026-03-13T06:36:16","date_gmt":"2026-03-13T09:36:16","guid":{"rendered":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/?p=7723"},"modified":"2026-03-13T07:42:15","modified_gmt":"2026-03-13T10:42:15","slug":"o-fim-das-listas-triplices","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/o-fim-das-listas-triplices\/","title":{"rendered":"O fim das listas tr\u00edplices"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">(publicado em<em> O Estado de S\u00e3o Paulo,<\/em> 13 de mar\u00e7o de 2026)<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Passou quase despercebido o fim listas tr\u00edplices para a nomea\u00e7\u00e3o de reitores para as universidades federais, por uma disposi\u00e7\u00e3o em meio a tantas outras do projeto de lei 5.874 encaminhado pelo governo e j\u00e1 aprovado pelo Congresso.\u00a0 Introduzidas pela reforma universit\u00e1ria de 1968, como listas s\u00eaxtuplas, e transformadas em 1995 em tr\u00edplices, a ideia era que os reitores fossem indicados de forma conjunta pelas universidades e governo federal, de tal forma que preservasse tanto a autonomia universit\u00e1ria quanto a responsabilidade do governo por zelar pelo alinhamento das universidades com os objetivos da sociedade que justificam seu financiamento com recursos\u00a0 p\u00fablicos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Bonita no papel, na pr\u00e1tica nunca funcionou direito. Dentro das universidades, a escolha das listas se d\u00e1 quase sempre por disputas conforme os alinhamentos pol\u00edticos de professores, alunos e funcion\u00e1rios, e a nomea\u00e7\u00e3o de outro que n\u00e3o seja o primeiro da lista provoca rea\u00e7\u00f5es.&nbsp; Fora dos anos do regime militar e do governo Bolsonaro, ambos hostis \u00e0s universidades, uma das poucas &nbsp;tentativas de nomear um reitor que n\u00e3o fosse o primeiro da lista foi a do governo FHC para a UFRJ 1998, criando um conflito de triste mem\u00f3ria.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O fim das listas tr\u00edplices consagra a autonomia pol\u00edtica das universidades federais. Agora, elas escolher\u00e3o sozinhas seus dirigentes. &nbsp;Elas continuam, no entanto, sem a maioria das outras autonomias que a Constitui\u00e7\u00e3o de 1988 previa &#8211; did\u00e1tico-cient\u00edfica, administrativa e de gest\u00e3o financeira e patrimonial. &nbsp;\u00c9 como se tivessem aceitado trocar uma coisa pelas outras. &nbsp;Elas s\u00e3o livres para contratar&nbsp; professores,&nbsp; desde que nas vagas autorizadas pelo Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o, cada vez mais escassas, e conforme normas r\u00edgidas de concursos, carreiras e n\u00edveis salariais.&nbsp; Os professores t\u00eam liberdade para ensinar, mas dentro dos par\u00e2metros curriculares definidos pelo MEC. A p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o \u00e9 vigiada pela CAPES. N\u00e3o podem selecionar seus alunos, escolhidos pelo ENEM. J\u00e1 perderam o direito de certificar advogados para a OAB, e est\u00e3o a ponto de perder o direito de certificar m\u00e9dicos e professores.&nbsp; E, como reparti\u00e7\u00f5es p\u00fablicas que s\u00e3o, o or\u00e7amento \u00e9 definido pelo MEC e pelo Congresso, n\u00e3o disp\u00f5em de patrim\u00f4nio pr\u00f3prio e s\u00f3 podem gastar segundo as regras r\u00edgidas do servi\u00e7o p\u00fablico.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A principal consequ\u00eancia desta perda de autonomia efetiva \u00e9 que o sistema federal se tornou cada vez mais r\u00edgido e incapaz de responder \u00e0 demanda crescente por ensino superior no pa\u00eds. Dos 10 milh\u00f5es de estudantes matriculados no ensino superior brasileiro em 2024, somente 1.3 milh\u00f5es estavam no sistema federal, e mais 666 mil em institui\u00e7\u00f5es estaduais, ficando 80% no setor privado. Parte da raz\u00e3o \u00e9 que todas as institui\u00e7\u00f5es federais t\u00eam o formato e os custos de universidades de pesquisa, com professores de tempo integral, embora a pesquisa e a p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o de alto n\u00edvel estejam concentradas em poucas institui\u00e7\u00f5es.&nbsp; Em 2024, o or\u00e7amento total das universidades federais, excluindo os institutos federais e os hospitais, chegou a 67 bilh\u00f5es de reais, dos quais 85% s\u00e3o para gastos de pessoal, que incluem as aposentadorias e pens\u00f5es, sobrando muito pouco para custeio e investimentos. Os sal\u00e1rios e benef\u00edcios dos professores de tempo integral s\u00e3o razo\u00e1veis, mas v\u00eam sendo comprimidos ao longo do tempo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Por detr\u00e1s da igualdade formal, existem enormes diferen\u00e7as. Em muitos casos,&nbsp; cursos e pesquisas s\u00e3o de alta qualidade, os professores s\u00e3o dedicados e comprometidos com os valores da educa\u00e7\u00e3o e da cultura, e existem oportunidades de estudo para jovens em condi\u00e7\u00f5es de pobreza e regi\u00f5es remotas. Em muitos outros, n\u00e3o tanto. O custo \u00e9 alto, mas o sistema como um todo \u00e9 extremamente ineficiente. Em 2024, o n\u00famero total de vagas oferecidas pelo sistema federal foi de 586 mil, mas s\u00f3 345 mil estudantes foram admitidos, e 157 mil se formaram. Sobram vagas, metade dos que entram n\u00e3o concluem, e muitos dos que se formam n\u00e3o conseguem trabalho qualificado. O n\u00famero de estudantes por professor \u00e9 pr\u00f3ximo de 11, comparado com 20 nas universidades privadas &nbsp;presenciais e centenas nos cursos \u00e0 dist\u00e2ncia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para fugir da camisa de for\u00e7a, muitas universidades federais criaram funda\u00e7\u00f5es de direito privado para administrar redursos de contratos e pesquisas, que em algumas, como a UFRJ, UFRGS e UFMG, podem ser bastante substanciais, mas tendem a ficar associados aos departamentos e institutos que os geram, e n\u00e3o beneficiam o conjunto.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O fim das listas tr\u00edplices n\u00e3o altera em nada este quadro. As universidades precisam de l\u00edderes qualificados que combinem legitimidade interna com responsabilidade pelos fins sociais que as justificam. Isto se consegue atrav\u00e9s de comiss\u00f5es mistas de busca de dirigentes e a possibilidade de trazer talentos de fora. Elas precisam de efetiva autonomia patrimonial, financeira e acad\u00eamica, tendo como contrapartida o financiamento associado a resultados, que \u00e9 incompat\u00edvel com o atual modelo de reparti\u00e7\u00e3o p\u00fablica. S\u00f3 assim conseguir\u00e3o se recuperar da posi\u00e7\u00e3o de pouca relev\u00e2ncia a que foram relegadas.<\/p>\n<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>(publicado em O Estado de S\u00e3o Paulo, 13 de mar\u00e7o de 2026) Passou quase despercebido o fim listas tr\u00edplices para a nomea\u00e7\u00e3o de reitores para as universidades federais, por uma disposi\u00e7\u00e3o em meio a tantas outras do projeto de lei 5.874 encaminhado pelo governo e j\u00e1 aprovado pelo Congresso.\u00a0 Introduzidas pela reforma universit\u00e1ria de 1968, &hellip; <a href=\"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/o-fim-das-listas-triplices\/\" class=\"more-link\">Continue reading<span class=\"screen-reader-text\"> &#8220;O fim das listas tr\u00edplices&#8221;<\/span><\/a><!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on get_the_excerpt --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on get_the_excerpt --><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_crdt_document":"","footnotes":""},"categories":[11],"tags":[],"class_list":["post-7723","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-educacao-superior"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7723","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=7723"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7723\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":7727,"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7723\/revisions\/7727"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=7723"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=7723"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=7723"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}