{"id":7740,"date":"2026-04-10T06:41:29","date_gmt":"2026-04-10T09:41:29","guid":{"rendered":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/?p=7740"},"modified":"2026-04-10T06:44:02","modified_gmt":"2026-04-10T09:44:02","slug":"esquecendo-a-licao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/esquecendo-a-licao\/","title":{"rendered":"Esquecendo a li\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">(Publicado em <em>O Estado de S\u00e3o Paulo<\/em>, 10 de abril de 2026)<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full is-resized\"><a href=\"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/pinoquio-1.png\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1021\" height=\"702\" src=\"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/pinoquio-1.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-7750\" style=\"aspect-ratio:1.454440516557247;width:566px;height:auto\" srcset=\"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/pinoquio-1.png 1021w, https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/pinoquio-1-420x289.png 420w, https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/pinoquio-1-744x512.png 744w, https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/pinoquio-1-768x528.png 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px\" \/><\/a><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para que a educa\u00e7\u00e3o d\u00ea certo, \u00e9 preciso aprender a li\u00e7\u00e3o. Fizemos dois planos nacionais de educa\u00e7\u00e3o que n\u00e3o funcionaram, e agora, como maus alunos, vamos para o terceiro, aprovado por aclama\u00e7\u00e3o pelo Congresso.\u00a0 Quando vi a not\u00edcia, lembrei da frase famosa de Nelson Rodrigues \u2014 toda unanimidade \u00e9 burra! Unanimidades s\u00e3o pouco inteligentes porque evitam dilemas e choques de interesse que precisam ser enfrentados. A sa\u00edda mais f\u00e1cil de contorn\u00e1-los \u00e9 jogar neles cada vez mais dinheiro, mas j\u00e1 estamos passando do limite.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A educa\u00e7\u00e3o brasileira se expandiu enormemente nas \u00faltimas d\u00e9cadas, envolvendo hoje mais de 60 milh\u00f5es de pessoas entre estudantes, professores e funcion\u00e1rios, quase um ter\u00e7o da popula\u00e7\u00e3o. Com as boas exce\u00e7\u00f5es de praxe, a qualidade \u00e9 baixa e o impacto na produtividade da economia, quase impercept\u00edvel. O pa\u00eds j\u00e1 gasta cerca de 6% do PIB via setor p\u00fablico e outros 1,6% pelo setor privado em educa\u00e7\u00e3o, muito mais, proporcionalmente, do que a grande maioria dos pa\u00edses. O Plano prev\u00ea que o investimento p\u00fablico chegue a 10% do PIB at\u00e9 2034. Com a economia crescendo pouco, a d\u00edvida p\u00fablica saindo do controle e competindo com outras demandas, \u00e9 uma meta t\u00e3o ilus\u00f3ria quanto a do plano passado, que encerrou com pouco mais da metade disso.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Vivemos com um sistema educativo concebido h\u00e1 mais de cinquenta anos que nunca funcionou bem, e n\u00e3o h\u00e1 de ser o recente \u201csistema nacional de educa\u00e7\u00e3o\u201d, aprovado tamb\u00e9m por unanimidade, que vai dar conta da mudan\u00e7a. Temos pela frente, por um lado, a impossibilidade de seguir gastando cada vez mais; por outro, duas grandes revolu\u00e7\u00f5es que podem abrir novos horizontes.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">As novas tecnologias j\u00e1 afetam profundamente o mercado de trabalho. Profiss\u00f5es inteiras est\u00e3o desaparecendo, outras surgindo, ningu\u00e9m sabe ao certo quais. A intelig\u00eancia artificial, os programas de ensino individualizado, as microcredenciais e a educa\u00e7\u00e3o a dist\u00e2ncia est\u00e3o mudando o que significa aprender. Estamos tamb\u00e9m diante de uma grande transi\u00e7\u00e3o demogr\u00e1fica:m os nascimentos ca\u00edram de 3,6 milh\u00f5es em 2000 para 2,6 milh\u00f5es em 2022, e a coorte que entrar\u00e1 no ensino fundamental em 2030 deve girar em torno de 2,3 a 2,4 milh\u00f5es. Escolas precisar\u00e3o ser fechadas, bons professores poder\u00e3o ganhar mais e outros precisar\u00e3o ser realocados ou dispensados.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Com menos estudantes e novas tecnologias, deve ser poss\u00edvel e ser\u00e1 necess\u00e1rio fazer muito mais com os mesmos e at\u00e9 menos recursos de que j\u00e1 dispomos, e dedicar\u00a0 mais para cuidar da popula\u00e7\u00e3o que est\u00e1 envelhecendo. Precisamos consolidar as boas experi\u00eancias, incorporar o que nos ensinam as pesquisas educacionais, aprender com outros pa\u00edses, abandonar o que n\u00e3o funciona e abrir espa\u00e7o para inova\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O Plano faz da inclus\u00e3o e da equidade dois de seus tr\u00eas pilares (o terceiro \u00e9 a qualidade) e se compromete a que os resultados educacionais sejam 90% equivalentes entre grupos definidos por ra\u00e7a, renda e territ\u00f3rio. Mas equidade, aqui, ainda significa sobretudo acesso \u2014 e o problema que o Brasil enfrenta hoje mudou de natureza. A grande exclus\u00e3o do s\u00e9culo XX era externa: as crian\u00e7as e jovens que n\u00e3o entravam na escola. Ela continua existindo, mas, cada vez mais, no s\u00e9culo XXI, \u00e9 interna. Nunca tantos brasileiros estiveram dentro do sistema; e nunca as diferen\u00e7as entre abandonar e persistir, aprender mais ou menos, e ter melhor ou pior acesso ao mercado de trabalho \u2014 associadas a diferen\u00e7as econ\u00f4micas e sociais de origem \u2014 foram t\u00e3o grandes. Al\u00e9m disto, o Plano deixa de lado quest\u00f5es espec\u00edficas urgentes. Como lidar com o \u201cpatinho feio\u201d da educa\u00e7\u00e3o brasileira, o ensino fundamental II, em que milh\u00f5es de jovens chegam aos 15 anos sem as compet\u00eancias m\u00ednimas esperadas? Quando aprenderemos com outros pa\u00edses a definir com clareza o que todos devem saber a esta idade e criar avalia\u00e7\u00f5es que responsabilizem as escolas pelos resultados e orientem os pr\u00f3ximos passos de cada estudante? Como fazer com que o ensino t\u00e9cnico n\u00e3o seja um mero penduricalho do curr\u00edculo m\u00e9dio tradicional e ofere\u00e7a alternativas efetivas para quem n\u00e3o ir\u00e1 \u00e0 universidade? Como escapar da camisa de for\u00e7a do ENEM, que acabou se tornando o curr\u00edculo oculto de todo o ensino m\u00e9dio, inviabilizando qualquer diversifica\u00e7\u00e3o real? E como fazer com que o ensino superior deixe de ser, para mais da metade dos que nele entram, uma miragem de futuro profissional que nunca alcan\u00e7ar\u00e3o?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O novo plano\u00a0 tem 19 objetivos e 73 metas, mas passa ao largo destas quest\u00f5es. Como dizia meu professor Aaron Wildavsky, planos como estes n\u00e3o s\u00e3o a solu\u00e7\u00e3o, mas parte do problema. Planos abrangentes e grandiosos, evitando temas controversos e combinando metas m\u00faltiplas distantes e dissociadas da responsabilidade de quem executa e da realidade or\u00e7ament\u00e1ria, geram no m\u00e1ximo burocracias para anotar o que foi ou n\u00e3o alcan\u00e7ado, por raz\u00f5es que nada t\u00eam a ver com o plano. Com isto, tiram o foco de problemas centrais que precisam de energia e de reformas pedag\u00f3gicas e institucionais concretas. Podem ser\u00a0 politicamente espertos, mas s\u00e3o pouco inteligentes.<\/p>\n<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>(Publicado em O Estado de S\u00e3o Paulo, 10 de abril de 2026) Para que a educa\u00e7\u00e3o d\u00ea certo, \u00e9 preciso aprender a li\u00e7\u00e3o. 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