{"id":7787,"date":"2026-07-10T07:35:29","date_gmt":"2026-07-10T10:35:29","guid":{"rendered":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/?p=7787"},"modified":"2026-07-10T07:35:39","modified_gmt":"2026-07-10T10:35:39","slug":"nos-ouvidos-do-rei","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/nos-ouvidos-do-rei\/","title":{"rendered":"Nos ouvidos do Rei"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">(Publicado em O Estado de S\u00e3o Paulo, 10 de julho de 2026)<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Com a aproxima\u00e7\u00e3o das elei\u00e7\u00f5es de outubro, \u00e9 curioso observar dois movimentos que parecem contradit\u00f3rios. Por um lado, um sentimento generalizado de fatalismo. A polariza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, confirmada e refor\u00e7ada pelas pesquisas de voto, indicam que estamos fadados a ter que escolher entre os candidatos menos ruins, respons\u00e1veis, cada qual \u00e0 sua maneira, pela situa\u00e7\u00e3o em que a maior parte do pa\u00eds se encontra, com a economia se arrastando, as contas p\u00fablica fora de controle, a m\u00e1 qualidade das pol\u00edticas sociais e as institui\u00e7\u00f5es em frangalhos. Por outro, uma grande mobiliza\u00e7\u00e3o de associa\u00e7\u00f5es, organiza\u00e7\u00f5es sociais, institutos de pesquisa\u00a0 e <em>think tanks<\/em> para formular projetos e propostas a serem levadas aos ouvidos do futuros governantes, na esperan\u00e7a de que eles se dignem a ouvir\u00a0 e quem sabe executar o que prop\u00f5em seus futuros s\u00faditos.\u00a0\u00a0 Ser\u00e1 que eles estar\u00e3o dispostos a prestar aten\u00e7\u00e3o e agir conforme as evid\u00eancias e propostas desenvolvidas com bons m\u00e9todos e racionalidade, ou continuar\u00e3o a agir, simplesmente, conforme suas ideias preconcebidas e interesses de curto prazo?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Depende, em parte, de que tipo de propostas e que n\u00edvel de governo. Duas pesquisas recentes ajudam a entender o que ocorre. A primeira, feita com quase dois mil prefeitos brasileiros<a href=\"#_ftn1\" id=\"_ftnref1\">[1]<\/a>, mostra que eles valorizam evid\u00eancia, pagam para conhecer resultados de avalia\u00e7\u00f5es de impacto e ajustam suas cren\u00e7as de forma bastante racional.\u00a0 Mas s\u00f3 fazem \u00a0o que est\u00e1 sendo sugerido quando forem propostas baratas, sem custo pol\u00edtico, sem exigir or\u00e7amento, aprova\u00e7\u00e3o legislativa ou reorganiza\u00e7\u00e3o da m\u00e1quina p\u00fablica. A outra pesquisa, feita na Espanha com quase seis mil munic\u00edpios, \u00a0mostra que a ideologia do mensageiro importa mais do que o conte\u00fado da mensagem. A proposta, no caso, era como atrair mais turistas para os munic\u00edpios melhorando as informa\u00e7\u00f5es dispon\u00edveis sobre eles na Internet, feita por organiza\u00e7\u00f5es alinhadas ou de oposi\u00e7\u00e3o aos governos locais.<a href=\"#_ftn2\" id=\"_ftnref2\">[2]<\/a> Quando o mensageiro era do mesmo lado, muitos prefeitos faziam o que era proposto; quando vinha da oposi\u00e7\u00e3o, era como se n\u00e3o existisse. Propostas vindas de institui\u00e7\u00f5es com boa reputa\u00e7\u00e3o mas n\u00e3o alinhadas tinham efeitos intermedi\u00e1rios. N\u00e3o basta estar certo: \u00e9 preciso ser ouvido por quem j\u00e1 concorda, ou ter reputa\u00e7\u00e3o suficiente para atravessar a desconfian\u00e7a ideol\u00f3gica. Mas, como no estudo brasileiro, n\u00e3o basta que a proposta seja bem feita e ideologicamente alinhada, ela precisa ser barata e simples de implementar. Na maioria dos casos, falta or\u00e7amento, quadros t\u00e9cnicos, continuidade administrativa e, com frequ\u00eancia, disposi\u00e7\u00e3o para arcar com o desgaste pol\u00edtico de uma mudan\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Se esta dificuldade existe para propostas simples a n\u00edvel das prefeituras, elas s\u00e3o maiores ainda para propostas complexas para governos estaduais ou para o governo federal. Isto n\u00e3o torna o trabalho de diagn\u00f3stico e elabora\u00e7\u00e3o de propostas um exerc\u00edcio in\u00fatil, mas permite entender melhor o seu alcance. S\u00f3 em casos excepcionais propostas bem fundamentadas, mas caras e complexas, s\u00e3o adotadas diretamente pelos governantes. Mas elas podem ter um efeito de longo prazo, de forma\u00e7\u00e3o das agendas de pol\u00edtica p\u00fablica. Propostas bem constru\u00eddas circulam pela imprensa, alimentam colunas de opini\u00e3o, aparecem em debates eleitorais e aos poucos tornam-se parte do vocabul\u00e1rio comum, inclusive de advers\u00e1rios ideol\u00f3gicos, que raramente citam a fonte original mas acabam absorvendo os argumentos. Para isto, al\u00e9m de tecnicamente bem elaboradas, elas precisam ser claramente intelig\u00edveis e comunic\u00e1veis em suas ideias centrais, sem se perder em detalhes. N\u00e3o basta elaborar um bom projeto e esperar que ele que ele se imponha pela for\u00e7a dos dados e dos argumentos. A comunica\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 um canal secund\u00e1rio, mas, quando bem feita, \u00e9 t\u00e3o ou mais eficaz do que o pr\u00f3prio projeto ou proposta que lhe deu\u00a0 origem.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O que traz um dilema que quem trabalha com pol\u00edticas p\u00fablicas conhece bem: que grau de detalhe, ou especificidade, as boas propostas precisam ter?&nbsp; Propostas amplas \u2014 melhorar o ensino m\u00e9dio, profissionalizar a gest\u00e3o municipal \u2014 s\u00e3o f\u00e1ceis de comunicar e n\u00e3o assustam ningu\u00e9m, mas s\u00e3o vazias demais para orientar qualquer decis\u00e3o. Propostas detalhadas, com desenho de implementa\u00e7\u00e3o, cronograma, fontes de financiamento e identifica\u00e7\u00e3o de quem ganha e quem perde s\u00e3o as \u00fanicas capazes de gerar mudan\u00e7a real, mas criam mais pontos de atrito: quanto mais espec\u00edfica, maior a chance de que algum detalhe desagrade mesmo a quem, por afinidade pol\u00edtica, estaria disposto a adot\u00e1-la.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e3o h\u00e1 solu\u00e7\u00e3o f\u00e1cil, mas os dois estudos sugerem um caminho: apostar menos na cren\u00e7a de que a evid\u00eancia &nbsp;e l\u00f3gica falam por si e mais em uma estrat\u00e9gia de comunica\u00e7\u00e3o. Pensar quem leva a mensagem e para quem, aceitando que o mesmo conte\u00fado pode precisar de portadores diferentes conforme o interlocutor. Formular propostas certas \u00e9 a parte f\u00e1cil. Faz\u00ea-las atravessar a desconfian\u00e7a pol\u00edtica e a real capacidade de execu\u00e7\u00e3o \u00e9 o verdadeiro trabalho, e \u00e9 nisso que os formuladores de propostas para o pr\u00f3ximo governo deveriam pensar, tanto quanto no conte\u00fado t\u00e9cnico de suas recomenda\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><a href=\"#_ftnref1\" id=\"_ftn1\">[1]<\/a> Hjort, Jonas, Diana Moreira, Gautam Rao, and Juan Francisco Santini. 2021. &#8220;How research affects policy: Experimental evidence from 2,150 Brazilian municipalities.&#8221; <strong>American Economic Review<\/strong> 111(5):1442-80.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><a href=\"#_ftnref2\" id=\"_ftn2\">[2]<\/a> Garcia-Hombrados, Jorge, Marcel Jansen, \u00c1ngel Mart\u00ednez, Berkay \u00d6zcan, Pedro Rey-Biel, and Antonio Rold\u00e1n-Mon\u00e9s. 2024. <strong>Ideological Alignment and Evidence-Based Policy Adoption.<\/strong> Institute of Labor Economics (IZA).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>(Publicado em O Estado de S\u00e3o Paulo, 10 de julho de 2026) Com a aproxima\u00e7\u00e3o das elei\u00e7\u00f5es de outubro, \u00e9 curioso observar dois movimentos que parecem contradit\u00f3rios. Por um lado, um sentimento generalizado de fatalismo. A polariza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, confirmada e refor\u00e7ada pelas pesquisas de voto, indicam que estamos fadados a ter que escolher entre os &hellip; <a href=\"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/nos-ouvidos-do-rei\/\" class=\"more-link\">Continue reading<span class=\"screen-reader-text\"> &#8220;Nos ouvidos do Rei&#8221;<\/span><\/a><!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on get_the_excerpt --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on get_the_excerpt --><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":"","_members_access_role":[],"_members_access_error":""},"categories":[27],"tags":[],"class_list":["post-7787","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-politica-publica"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7787","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=7787"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7787\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":7789,"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7787\/revisions\/7789"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=7787"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=7787"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=7787"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}