{"id":80,"date":"2006-06-09T05:50:00","date_gmt":"2006-06-09T08:50:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/?p=80"},"modified":"2008-08-03T17:58:39","modified_gmt":"2008-08-03T20:58:39","slug":"como-nos-tempos-do-estado-novo-obrigatoriedade-da-sociologia-e-filosofia-no-ensino-medio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/como-nos-tempos-do-estado-novo-obrigatoriedade-da-sociologia-e-filosofia-no-ensino-medio\/","title":{"rendered":"Como nos tempos do Estado Novo: obrigatoriedade da sociologia e filosofia no ensino medio"},"content":{"rendered":"<p>Tenho recebido uma chuva de mensagens pedindo apoio para a campanha para tornar obrigat\u00f3rio o ensino de sociologia e filosofia no ensino m\u00e9dio. O principal promotor desta campanha \u00e9 o sindicato dos soci\u00f3logos de S\u00e3o Paulo. A Lei de Diretrizes e Bases diz que os estudantes oriundos do ensino m\u00e9dio devem demonstrar &#8221; dom\u00ednio dos conhecimentos de Filosofia e de Sociologia necess\u00e1rios ao exerc\u00edcio da cidadania&#8221;. Ora, quem sabe sociologia e filosofia s\u00e3o os soci\u00f3logos e fil\u00f3sofos formados nestas disciplinas, e quando a lei passar a ser cumprida, eles ser\u00e3o contratados para dar estes cursos, criando um grande mercado de trabalho para estas profiss\u00f5es e, ao mesmo tempo, formando melhores cidad\u00e3os para o pais. Bom para os soci\u00f3logos e fil\u00f3sofos profissionais, e bom para todo mundo. Certo?<\/p>\n<p>N\u00e3o, errado! No passado, a tradi\u00e7\u00e3o era que o governo definia, nacionalmente, os curr\u00edculos de todos os cursos, que eram obrigat\u00f3rios para todas as escolas. A conseq\u00fc\u00eancia era que o ensino se dava de forma burocr\u00e1tica, ritualizada, e os estudantes tinham que aprender um amontoado de conhecimentos in\u00fateis e mal dados, que eram esquecidos rapidamente. Em grande parte, isto ainda \u00e9 assim. A Lei de Diretrizes e Bases de 1996, ainda que de forma imperfeita, buscou mudar isto. Ela estabelece, de forma bastante ampla, que os estudantes devem adquirir conhecimentos de ci\u00eancias naturais, linguagem e ci\u00eancias sociais e humanas, e que os governos, nos seus diferentes n\u00edveis. devem estabelecer as &#8220;compet\u00eancias e diretrizes&#8221; da educa\u00e7\u00e3o em seus diversos n\u00edveis,  \u201cque nortear\u00e3o os curr\u00edculos e seus conte\u00fados m\u00ednimos\u201d dos diferentes cursos. Ela menciona filosofia e sociologia (erradamente, me parece), da mesma forma que poderia mencionar disciplinas tradicionais do ensino m\u00e9dio, como geografia e historia, e disciplinas que obviamente deveriam existir, como o direito, a economia, a computa\u00e7\u00e3o e a estat\u00edstica. Em principio, cada escola deveria poder organizar seu programa de estudos como achasse melhor, e os estados e munic\u00edpios poderiam estabelecer requisitos mais espec\u00edficos para seu \u00e2mbito de atua\u00e7\u00e3o, que as escolas deveriam atender, sem perder sua autonomia.<\/p>\n<p>Mas o publico, de uma maneira geral, n\u00e3o entendeu isto, e os governantes tampouco. As demandas pelo ensino obrigat\u00f3rio de diferentes disciplinas n\u00e3o para de crescer: educa\u00e7\u00e3o ambiental, l\u00edngua castelhana, agora sociologia e filosofia &#8211; porque n\u00e3o antropologia e demografia, e trazer de volta a historia e geografia, e mais a economia e o direito, sem falar das novas \u00e1reas cientificas e t\u00e9cnicas, como computa\u00e7\u00e3o, biotecnologia e nanotecnologia? E a teologia, ou religi\u00e3o? Milhares de novos professores seriam contratados para estes cursos obrigat\u00f3rios, e os alunos que se virem para entender e memorizar todos estes novos conte\u00fados!<\/p>\n<p>Isto n\u00e3o tem como dar certo. Do ponto de vista dos alunos, este tipo de educa\u00e7\u00e3o enciclop\u00e9dica, formada pela soma de pequenos fragmentos de conhecimentos das diversas disciplinas, n\u00e3o faz o menor sentido. O estudantes precisam dominar a linguagem verbal e simb\u00f3lica das matem\u00e1ticas, e \u00e9 importante que entendam o que s\u00e3o as ci\u00eancias, o que \u00e9 o mundo das rela\u00e7\u00f5es sociais e econ\u00f4micas, e o que s\u00e3o as institui\u00e7\u00f5es. Isto pode ser feito de muitas maneiras diferentes, e existem formas de verificar se de fato estes conhecimentos b\u00e1sicos est\u00e3o sendo adquiridos e incorporados (vejam por exemplo as avalia\u00e7\u00f5es internacionais da OECD, o PISA). O mais importante n\u00e3o \u00e9 o conhecimento extenso, de um monte de fragmentos, mas o conhecimento o mais aprofundado poss\u00edvel de algumas \u00e1reas, com as quais as escolas possam ter mais afinidade. No n\u00edvel m\u00e9dio, algumas escolas podem preferir se aprofundar na forma\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria, outras na forma\u00e7\u00e3o em ci\u00eancias biol\u00f3gicas, outras na forma\u00e7\u00e3o filos\u00f3fica ou sociol\u00f3gica, ou em determinadas l\u00ednguas estrangeiras. Idealmente, os alunos, e suas fam\u00edlias, deveriam poder escolher as escolas conforme suas especialidades. Mesmo n\u00e3o havendo esta possibilidade, se a escola trabalhar bem seus temas, o mais prov\u00e1vel \u00e9 que todos os alunos se beneficiem.<\/p>\n<p>Meus colegas do sindicato de soci\u00f3logos que me perdoem, mas sociologia n\u00e3o \u00e9, nunca foi e provavelmente nunca ser\u00e1 uma profiss\u00e3o, e sim uma disciplina acad\u00eamica, com fronteiras pouco definidas e conte\u00fados muito vari\u00e1veis. Como disciplina, ela se aproxima mais de \u00e1reas como a filosofia, antropologia e economia do que das profiss\u00f5es estabelecidas como o direito ou a medicina. Os conhecimentos relativos ao mundo das rela\u00e7\u00f5es sociais, assim como das quest\u00f5es da \u00e9tica e da moralidade, n\u00e3o s\u00e3o privil\u00e9gios dos soci\u00f3logos e fil\u00f3sofos portadores dos respectivos diplomas, mas est\u00e3o presentes, de diversas formas, em outras disciplinas, como a teologia, a antropologia, o direito, a historia e a critica liter\u00e1ria. Fazer com que as escolas contratem, obrigatoriamente, pessoas com diplomas de soci\u00f3logo ou filosofo n\u00e3o \u00e9 nenhuma garantia de que os estudantes ir\u00e3o adquirir conhecimentos relevantes nestas \u00e1reas, inclusive porque a Lei de Diretrizes e Bases n\u00e3o diz, nem teria como dizer, que conte\u00fados espec\u00edficos em sociologia ou filosofia os estudantes deveriam aprender. Dada a qualidade geralmente prec\u00e1ria dos cursos superiores de sociologia e filosofia no pais, criar esta obrigatoriedade seria, simplesmente, enrijecer ainda mais o curr\u00edculo escolar, e tornar o ensino m\u00e9dio pior ainda do que j\u00e1 \u00e9 .<\/p>\n<p>Eu vejo um papel importante para soci\u00f3logos e fil\u00f3sofos em rela\u00e7\u00e3o ao ensino m\u00e9dio, que \u00e9 o de pensar e propor, a partir de seus conhecimentos, conte\u00fados que poderiam ser de interesse das escolas, preparando livros e materiais pedag\u00f3gicos de qualidade, e tratando de convencer as escolas da import\u00e2ncia de seus conhecimentos para a forma\u00e7\u00e3o dos jovens. Mas isto deve ser feito de baixo para cima, a partir do trabalho com as escolas, e n\u00e3o de cima para baixo, pela promulga\u00e7\u00e3o de leis de ensino obrigat\u00f3rio, como nos velhos tempos do Estado Novo.<\/p>\n<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Tenho recebido uma chuva de mensagens pedindo apoio para a campanha para tornar obrigat\u00f3rio o ensino de sociologia e filosofia no ensino m\u00e9dio. O principal promotor desta campanha \u00e9 o sindicato dos soci\u00f3logos de S\u00e3o Paulo. 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