{"id":84,"date":"2006-07-07T01:24:00","date_gmt":"2006-07-07T04:24:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/?p=84"},"modified":"2008-08-03T17:57:39","modified_gmt":"2008-08-03T20:57:39","slug":"edward-telles-o-debate-sobre-politicas-raciais","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/edward-telles-o-debate-sobre-politicas-raciais\/","title":{"rendered":"Edward Telles: O debate sobre pol\u00edticas raciais"},"content":{"rendered":"<p><span style=\"font-style: italic;\">Edward Telles, professor do Departamento de Sociologia da UCLA (University of California Los Angeles), envia a seguinte contribui\u00e7\u00e3o:<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: bold;\">Pol\u00edticas raciais: um debate franco e plural<\/span><\/p>\n<p>Na semana passada, a imprensa brasileira divulgou a iniciativa de um conjunto de intelectuais, ativistas e artistas que levou a Bras\u00edlia um documento contra a ado\u00e7\u00e3o das PLs Lei das Cotas e o Estatuto da Igualdade Racial. Na mesma data em que os representantes dessa iniciativa reuniam-se em Bras\u00edlia com o presidente da C\u00e2mara dos Deputados e do Senado para entrega formal do documento, Dem\u00e9trio Magnoli, colunista desta Folha, acusou-me publicamente no seu artigo de 29 de junho passado de \u201cpescar um documento p\u00fablico da Internet e falsificar (seu) t\u00edtulo\u201d. Meu ato il\u00edcito teria consistido, segundo o colunista, em denominar tal documento como o \u201cManifesto da Elite Branca\u201d e divulg\u00e1-lo, em seguida, no boletim eletr\u00f4nico da Brazilian Studies Association (BRASA).<\/p>\n<p>Vamos aos fatos para evitar que o debate sobre racismo no Brasil n\u00e3o fique comprometido por pr\u00e1ticas intimidadoras que buscam deslegitimar aqueles que, como eu, fundamentados em v\u00e1rios anos de pesquisa e an\u00e1lises emp\u00edricas rigorosas, defendem pol\u00edticas de cunho racial. Com sua circula\u00e7\u00e3o na sociedade brasileira, foi-me enviado, bem como a outras pessoas, por email, c\u00f3pia de tal manifesto. Constava do email o t\u00edtulo \u201cManifesto da Elite Branca\u201d no subject line. Sugeri aos coordenadores da BRASA, Professores Marshall Eakin e James Green, que o fizessem circular no seu site, dando, assim, acesso aos brasilianistas para debate. Ciente do t\u00edtulo repugnante &#8211; \u201cManifesto da Elite Branca\u201d \u2013 que constava como \u201cassunto\u201d no email, mas fiel \u00e0s fontes, mencionei no site da BRASA que o documento circulava na Internet com tal denomina\u00e7\u00e3o. Fiz aquilo que fazemos todos que usamos a Internet para veicular id\u00e9ias, debates e propostas. Coloquei \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o o documento, informando como estava sendo veiculado.<\/p>\n<p>Sou acad\u00eamico e na qualidade de estudioso das quest\u00f5es raciais comparativas, fui selecionado em 1996 pela Funda\u00e7\u00e3o Ford para ser Program Officer no seu escrit\u00f3rio do Rio de Janeiro, onde permaneci at\u00e9 2000. Porque trabalhei nessa Funda\u00e7\u00e3o na \u00e1rea de direitos humanos, Magnoli me descreve como intelectual ativista que defende os direitos das \u201cminorias.\u201d Na minha vis\u00e3o, compartilhada n\u00e3o apenas por colegas brasileiros igualmente funcion\u00e1rios da Ford, mas tamb\u00e9m por in\u00fameros outros acad\u00eamicos, atuantes e representantes de diversos setores da sociedade brasileira, sempre foi importante investir nas demandas de grupos minorit\u00e1rios, sejam negros, mulheres, gays ou ind\u00edgenas, para fazer valer suas vozes e suas lutas no processo democr\u00e1tico.<\/p>\n<p>No meu livro, <span style=\"font-style: italic;\">Race in Another America: The Significance of Skin Color in Brazil <\/span>(2004), que ganhou da American Sociological Association o pr\u00eamio de melhor livro em 2006, explico com rigor por que sou a favor de pol\u00edticas que consideram a cor das pessoas, para al\u00e9m daquelas que devem ser garantidas sem discrimina\u00e7\u00e3o de qualquer tipo a todos os cidad\u00e3os de um pa\u00eds.  Os princ\u00edpios da universalidade deveriam ser suficientes para regir nossas sociedades, por\u00e9m n\u00e3o bastam nas sociedades contempor\u00e2neas, pois n\u00e3o conseguem desarmar a discrimina\u00e7\u00e3o com base na cor da pele.  Em meus estudos mostro que as taxas de mobilidade social brasileiras revelam que crian\u00e7as pobres por\u00e9m brancas t\u00eam maior chance de chegar a posi\u00e7\u00f5es de classe m\u00e9dia do que crian\u00e7as igualmente pobres, mas negras.<\/p>\n<p>A grande desigualdade racial no Brasil se ap\u00f3ia em uma estrutura hiper-desigual e tamb\u00e9m por haver barreiras \u00e0 entrada de negros na classe m\u00e9dia, o que tem produzido uma elite brasileira quase inteiramente branca. A primeira causa deve ser tratada com medidas universalistas capazes de reduzir a desigualdade entre todos os brasileiros, mas a segunda s\u00f3 pode ser enfrentada com pol\u00edticas compensat\u00f3rias de cunho racial, especialmente aquelas que facilitam a entrada de negros nas universidades. N\u00e3o podemos ignorar a ra\u00e7a na constru\u00e7\u00e3o de uma democracia inclusiva, posto que ela \u00e9 crit\u00e9rio da exclus\u00e3o. Dadas as especificidades brasileiras, pol\u00edticas sociais que procuram reduzir ou at\u00e9 mesmo superar o enorme fosso racial no Brasil t\u00eam de ser engenhosas e criativas. Julgar, por\u00e9m que se possa ignorar a quest\u00e3o racial nos seus desenhos, seria ilus\u00f3rio.<\/p>\n<p>Martin Luther King, defensor das pol\u00edticas universalistas, dizia que, contar apenas com elas, \u201cn\u00e3o \u00e9 realista\u201d. Quando um homem se lan\u00e7a na corrida com tr\u00eas s\u00e9culos de atraso, \u00e9 praticamente imposs\u00edvel superar a defasagem que o separa dos que largaram na frente. Milagres n\u00e3o existem. Vontade pol\u00edtica, sim. Tardava que o debate sobre a quest\u00e3o racial fosse enfrentado com coragem pela sociedade brasileira. Para que se avance nele \u00e9 essencial que ganhe as p\u00e1ginas desta Folha e de toda a imprensa. Contudo, se avan\u00e7ar no debate significa destruir quem pensa diferente, falsear inten\u00e7\u00f5es e escamotear a verdade, ent\u00e3o o risco de sermos ineficazes e in\u00f3cuos na nossa a\u00e7\u00e3o \u00e9 grande. E com isso, n\u00e3o estaremos ajudando a combater com efetividade o racismo.<\/p>\n<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Edward Telles, professor do Departamento de Sociologia da UCLA (University of California Los Angeles), envia a seguinte contribui\u00e7\u00e3o: Pol\u00edticas raciais: um debate franco e plural Na semana passada, a imprensa brasileira divulgou a iniciativa de um conjunto de intelectuais, ativistas e artistas que levou a Bras\u00edlia um documento contra a ado\u00e7\u00e3o das PLs Lei das &hellip; <a href=\"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/edward-telles-o-debate-sobre-politicas-raciais\/\" class=\"more-link\">Continue reading<span class=\"screen-reader-text\"> &#8220;Edward Telles: O debate sobre pol\u00edticas raciais&#8221;<\/span><\/a><!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on get_the_excerpt --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on get_the_excerpt --><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_crdt_document":"","footnotes":""},"categories":[14],"tags":[],"class_list":["post-84","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-politica-racial"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/84","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=84"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/84\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":478,"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/84\/revisions\/478"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=84"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=84"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=84"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}