{"id":91,"date":"2006-08-04T10:36:00","date_gmt":"2006-08-04T13:36:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/?p=91"},"modified":"2008-08-03T17:53:04","modified_gmt":"2008-08-03T20:53:04","slug":"uma-maneira-emocionante-de-voar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/uma-maneira-emocionante-de-voar\/","title":{"rendered":"Uma maneira emocionante de voar"},"content":{"rendered":"<p>Depois de alguns meses em Oslo, onde tudo \u00e9 organizado e funciona, e a adrenalina nunca sobe fora dos campeonatos de ski,  foi emocionante voltar ao Brasil tendo que fazer uma conex\u00e3o em Londres pela Varig em crise. O mais emocionante de tudo era a total falta de informa\u00e7\u00f5es sobre o que estava acontecendo ou iria acontecer. Os telefones da companhia nas diversas capitais europ\u00e9ias haviam sido cortados, ou respondiam com musiquinha eterna do Antonio Carlos Jobim, e muito raramente atendia algu\u00e9m, que dizia n\u00e3o saber de nada. Aproveitando a crise da Varig, as outras companhias que voam para o Brasil jogaram os pre\u00e7os nas alturas, e mesmo assim todos os voos estavam lotados para as pr\u00f3ximas semanas.<\/p>\n<p>A melhor recomenda\u00e7\u00e3o que consegui foi embarcar para Londres como estava previsto, procurar a Varig no  aeroporto, e ver o que ia acontecer. Chegamos \u00e0s 7 da noite, com v\u00e1rias malas, e o que encontramos foi dezenas de pessoas amontoadas ante um guich\u00ea onde dois funcion\u00e1rios tentavam atender de alguma maneira quem conseguia chegar at\u00e9 eles.  Alguns haviam entrado na fila duas da tarde, outros estavam tentando ser atendidos pelo segundo ou terceiro dia. Alguns conseguiam ser colocados em voos de outras companhias, outros n\u00e3o. Outros funcion\u00e1rios conversavam com os passageiros na fila, e davam informa\u00e7\u00f5es desencontradas. A um estudante uruguaio, que dizia n\u00e3o ter dinheiro nem para comprar um sandu\u00edche, disseram que n\u00e3o poderiam fazer nada, que a Varig n\u00e3o estava pagando gastos de hotel, e ele que procurasse sua embaixada para pedir ajuda. Um italiano chegou perguntando, inocentemente, aonde deveria entregar sua bagagem, e foi informado de que o v\u00f4o n\u00e3o existia, que a Varig n\u00e3o voltaria a voar, e que ele deveria pedir \u00e0 ag\u00eancia de viagens que devolvesse o dinheiro da passagem. Para uma mo\u00e7a educada que pedia o telefone da Varig em Londres para se queixar, deram um n\u00famero que, quase certamente, n\u00e3o atenderia. Onze da noite, depois de eu ter reservado e pago um hotel pela Internet, anunciaram aos que ainda estavam na fila que teriam um hotel pago pela companhia, e que em dois dias, esperavam, haveria um v\u00f4o extra de Londres para o Brasil. Dois dias depois mandaram os que estavam no hotel para Frankfurt, aonde foi preciso enfrentar uma nova fila para conseguir o cart\u00e3o de embarque para um dos dois v\u00f4os que estavam saindo para o Brasil, em meio a boatos de que a tripula\u00e7\u00e3o estava exigindo seu descanso regulamentar, e n\u00e3o voaria. Minha impress\u00e3o dos funcion\u00e1rios com quem lidei foi que estavam todos muito tensos, tendo que absorver e lidar com a ansiedade dos passageiros, temendo ser agredidos, e sem saber o pr\u00f3prio futuro, com a amea\u00e7a bastante real de perder seus empregos.  A maioria conseguia se manter equilibrada e tratar bem todo mundo, mas ouvi muitas queixas de gente maltratada tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>A principal causa da confus\u00e3o, me parece, foi a t\u00e1tica deliberada da companhia e seus novos donos de ir empurrando os problemas com a barriga, lidando com as crises e situa\u00e7\u00f5es a cada momento, em vez de buscar uma solu\u00e7\u00e3o organizada a previs\u00edvel para a situa\u00e7\u00e3o de fal\u00eancia, conhecida h\u00e1 tanto tempo. \u00c9 uma t\u00e1tica que tem sua l\u00f3gica.  Se eu tivesse sido informado com anteced\u00eancia que meu v\u00f4o havia sido cancelado e a passagem perdida, eu teria comprado outra, arcado com o preju\u00edzo e pronto, gastando um pouco de b\u00edlis, mas pouca adrenalina. Sem isto, fica a press\u00e3o de todos sobre a companhia e as mat\u00e9rias na imprensa, que, sem d\u00favida, ajudam a pressionar o governo e os credores por mais prazos, mais concess\u00f5es, e assim ir vendo o que d\u00e1 para salvar de todo este desastre. Nesta confus\u00e3o, n\u00e3o existe previsibilidade, n\u00e3o h\u00e1 crit\u00e9rios claros sobre quem vai ou n\u00e3o ser atendido, e as solu\u00e7\u00f5es parecem variar tanto em fun\u00e7\u00e3o do \u201cvoc\u00ea sabe com quem est\u00e1 falando\u201d como do humor dos funcion\u00e1rios, ou das instru\u00e7\u00f5es diferentes que recebem a cada momento. O fato de que havia em meu grupo um advogado bem relacionado em Bras\u00edlia, e que o grupo se organizou para tratar em conjunto com a companhia, parece que ajudou bastante.<\/p>\n<p>O que torna poss\u00edvel esta t\u00e1tica de empurrar com a barriga, me parece, \u00e9 a inseguran\u00e7a jur\u00eddica que caracteriza a economia do pais,  sobretudo numa \u00e1rea regulada como esta da avia\u00e7\u00e3o civil. Desde o in\u00edcio, a crise da Varig tem sido marcada por uma sucess\u00e3o intermin\u00e1vel de apelos, decis\u00f5es e contra-decis\u00f5es judiciais, e um posicionamento pouco claro por parte do governo que, por um lado, tem conseguido evitar que o setor p\u00fablico, via BNDES, assuma todos os custos da fal\u00eancia da empresa, mas, outro lado, faz uma s\u00e9rie de concess\u00f5es em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s d\u00edvidas com o fisco, uso de aeroportos, concess\u00e3o de linhas, etc. Nisto, o governo tem apoio da opini\u00e3o p\u00fablica \u2013 uma enqu\u00eate do site do O Globo na Internet mostrou que a maioria das pessoas achava que a vi\u00fava deveria acudir a Varig, e poucos eram a favor de uma \u201csolu\u00e7\u00e3o de mercado\u201d, aonde a Varig nunca conseguiu competir. Minha impress\u00e3o \u00e9 que, neste processo, a empresa foi se desorganizando cada vez mais, perdendo valor e espa\u00e7o no mercado, e o resultado final est\u00e1 sendo pior para todos, desde as empresas internacionais que fornecem os avi\u00f5es e dever\u00e3o buscar mais garantias  e prote\u00e7\u00e3o para assinar novos contratos. at\u00e9 o p\u00fablico que \u00e9 afetado pelas incertezas e n\u00e3o tem os benef\u00edcios de um mercado mais competitivo, sem falar, \u00e9 claro, nos custos invis\u00edveis dos impostos e taxas que o governo deixa de recolher, e que s\u00e3o pagos, em boa parte, por quem s\u00f3 anda de \u00f4nibus.<\/p>\n<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Depois de alguns meses em Oslo, onde tudo \u00e9 organizado e funciona, e a adrenalina nunca sobe fora dos campeonatos de ski, foi emocionante voltar ao Brasil tendo que fazer uma conex\u00e3o em Londres pela Varig em crise. 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