{"id":910,"date":"2008-11-28T06:13:20","date_gmt":"2008-11-28T09:13:20","guid":{"rendered":"http:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/?p=910&#038;lang=pt-br"},"modified":"2016-10-30T07:59:28","modified_gmt":"2016-10-30T10:59:28","slug":"eunice-durham-fabricas-de-maus-professores","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/eunice-durham-fabricas-de-maus-professores\/","title":{"rendered":"Eunice Durham: f\u00e1bricas de maus professores"},"content":{"rendered":"<p><em>Entrevista de Eunice Durham \u00e0s &#8220;P\u00e1ginas Amarelas&#8221; da revista Veja, na edi\u00e7\u00e3o de 26\/11\/2008: <\/em><a href=\"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-content\/uploads\/2008\/11\/eunice.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignright size-medium wp-image-911\" title=\"Eunice Durham\" src=\"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-content\/uploads\/2008\/11\/eunice.jpg\" alt=\"\" width=\"217\" height=\"280\" \/><\/a><\/p>\n<p><em>Hoje h\u00e1 poucos estudiosos empenhados em produzir pesquisa de bom n\u00edvel sobre a universidade brasileira. Entre eles, a antrop\u00f3loga Eunice Durham, 75 anos, vinte dos quais dedicados ao tema, tem o m\u00e9rito de tratar do assunto com rara objetividade. Seu trabalho representa um avan\u00e7o, tamb\u00e9m, porque mostra, com clareza, como as universidades t\u00eam rela\u00e7\u00e3o direta com a m\u00e1 qualidade do ensino oferecido nas escolas do pa\u00eds. Ela diz: &#8220;Os cursos de pedagogia s\u00e3o incapazes de formar bons professores&#8221;. Ex-secret\u00e1ria de pol\u00edtica educacional do Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o (MEC) no governo Fernando Henrique, Eunice \u00e9 do N\u00facleo de Pesquisa de Pol\u00edticas P\u00fablicas, da Universidade de S\u00e3o Paulo \u2013 onde ingressou como professora h\u00e1 cinq\u00fcenta anos.<\/em><\/p>\n<p>Sua pesquisa mostra que as faculdades de pedagogia est\u00e3o na raiz do mau ensino nas escolas brasileiras. Como?<br \/>\nAs faculdades de pedagogia formam professores incapazes de fazer o b\u00e1sico, entrar na sala de aula e ensinar a mat\u00e9ria. Mais grave ainda, muitos desses profissionais revelam limita\u00e7\u00f5es elementares: n\u00e3o conseguem escrever sem cometer erros de ortografia simples nem expor conceitos cient\u00edficos de m\u00e9dia complexidade. Chegam aos cursos de pedagogia com defici\u00eancias pedestres e saem de l\u00e1 sem ter se livrado delas. Minha pesquisa aponta as causas. A primeira, sem d\u00favida, \u00e9 a mentalidade da universidade, que supervaloriza a teoria e menospreza a pr\u00e1tica. Segundo essa corrente acad\u00eamica em vigor, o trabalho concreto em sala de aula \u00e9 inferior a reflex\u00f5es supostamente mais nobres.<\/p>\n<p>Essa filosofia \u00e9 assumida abertamente pelas faculdades de pedagogia?<br \/>\nO objetivo declarado dos cursos \u00e9 ensinar os candidatos a professor a aplicar conhecimentos filos\u00f3ficos, antropol\u00f3gicos, hist\u00f3ricos e econ\u00f4micos \u00e0 educa\u00e7\u00e3o. Pretens\u00e3o alheia \u00e0s necessidades reais das escolas \u2013 e absurda diante de estudantes universit\u00e1rios t\u00e3o pouco escolarizados.<\/p>\n<p>O que, exatamente, se ensina aos futuros professores?<br \/>\nFiz uma an\u00e1lise detalhada das diretrizes oficiais para os cursos de pedagogia. Ali \u00e9 poss\u00edvel constatar, com n\u00fameros, o que j\u00e1 se observa na pr\u00e1tica. Entre catorze artigos, catorze par\u00e1grafos e 38 incisos, apenas dois itens se referem ao trabalho do professor em sala de aula. Esse parece um assunto secund\u00e1rio, menos relevante do que a ideologia atrasada que domina as faculdades de pedagogia.<\/p>\n<p>Como essa ideologia se manifesta?<br \/>\nPor exemplo, na bibliografia adotada nesses cursos, circunscrita a autores da esquerda pedag\u00f3gica. Eles confundem pensamento cr\u00edtico com falar mal do governo ou do capitalismo. N\u00e3o passam de manuais com uma vis\u00e3o simplificada, e por vezes preconceituosa, do mundo. O mesmo tom aparece nos programas dos cursos, que eu ajudo a analisar no Conselho Nacional de Educa\u00e7\u00e3o. Perdi as contas de quantas vezes estive diante da palavra dial\u00e9tica, que, n\u00e3o h\u00e1 d\u00favida, a maioria das pessoas inclui sem saber do que se trata. Em vez de aprenderem a dar aula, os aspirantes a professor s\u00e3o expostos a uma cole\u00e7\u00e3o de jarg\u00f5es. Tudo precisa ser democr\u00e1tico, participativo, dial\u00f3gico e, naturalmente, decidido em assembl\u00e9ia.<\/p>\n<p>Quais os efeitos disso na escola?<br \/>\nQuando chegam \u00e0s escolas para ensinar, muitos dos novatos apenas repetem esses bord\u00f5es. Eles n\u00e3o sabem nem como come\u00e7ar a executar suas tarefas mais b\u00e1sicas. A situa\u00e7\u00e3o se agrava com o fato de os professores, de modo geral, n\u00e3o admitirem o \u00f3bvio: o ensino no Brasil \u00e9 ainda t\u00e3o ruim, em parte, porque eles pr\u00f3prios n\u00e3o est\u00e3o preparados para desempenhar a fun\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Por que os professores s\u00e3o t\u00e3o pouco autocr\u00edticos?<br \/>\nEles s\u00e3o corporativistas ao extremo. Podem at\u00e9 estar cientes do baixo n\u00edvel do ensino no pa\u00eds, mas costumam atribuir o fiasco a fatores externos, como o fato de o governo n\u00e3o lhes prover a forma\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria e de eles ganharem pouco. \u00c9 um cen\u00e1rio preocupante. Os professores se eximem da culpa pelo mau ensino \u2013 e, conseq\u00fcentemente, da responsabilidade. Nos sindicatos, todo esse corporativismo se exacerba.<\/p>\n<p>Como os sindicatos prejudicam a sala de aula?<br \/>\nEst\u00e1 suficientemente claro que a a\u00e7\u00e3o fundamental desses movimentos \u00e9 garantir direitos corporativos, e n\u00e3o o bom ensino. Entenda-se por isso: lutar por greves, aumentos de sal\u00e1rio e faltas ao trabalho sem nenhuma esp\u00e9cie de puni\u00e7\u00e3o. O absente\u00edsmo dos professores \u00e9, afinal, uma das pragas da escola p\u00fablica brasileira. O \u00edndice de aus\u00eancias \u00e9 escandaloso. Um professor falta, em m\u00e9dia, um m\u00eas de trabalho por ano e, o pior, n\u00e3o perde um centavo por isso. Cen\u00e1rio de atraso num pa\u00eds em que \u00e9 urgente fazer a educa\u00e7\u00e3o avan\u00e7ar. Combater o corporativismo dos professores e aprimorar os cursos de pedagogia, portanto, s\u00e3o duas medidas essenciais \u00e0 melhora dos indicadores de ensino.<\/p>\n<p>A senhora estende suas cr\u00edticas ao restante da universidade p\u00fablica?<br \/>\nH\u00e1 dois fen\u00f4menos distintos nas institui\u00e7\u00f5es p\u00fablicas. O primeiro \u00e9 o dos cursos de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o nas \u00e1reas de ci\u00eancias exatas, que, embora ainda atr\u00e1s daqueles oferecidos em pa\u00edses desenvolvidos, est\u00e3o sendo capazes de fazer o que \u00e9 esperado deles: absorver novos conhecimentos, conseguir aplic\u00e1-los e contribuir para sua evolu\u00e7\u00e3o. Nessas \u00e1reas, come\u00e7a a surgir uma rela\u00e7\u00e3o mais estreita entre as universidades e o mercado de trabalho. Algo que, segundo j\u00e1 foi suficientemente mensurado, \u00e9 necess\u00e1rio ao avan\u00e7o de qualquer pa\u00eds. A outra realidade da universidade p\u00fablica a que me refiro \u00e9 a das ci\u00eancias humanas. \u00c1rea que hoje, no Brasil, est\u00e1 prejudicada pela ideologia e pelo excesso de cr\u00edticas vazias. Nada disso contribui para elevar o n\u00edvel da pesquisa acad\u00eamica.<\/p>\n<p>Um estudo da OCDE (organiza\u00e7\u00e3o que re\u00fane os pa\u00edses mais industrializados) mostra que o custo de um universit\u00e1rio no Brasil est\u00e1 entre os mais altos do mundo \u2013 e o pa\u00eds responde por apenas 2% das cita\u00e7\u00f5es nas melhores revistas cient\u00edficas. Como a senhora explica essa inefici\u00eancia?<br \/>\nSem d\u00favida, poder\u00edamos fazer o mesmo, ou mais, sem consumir tanto dinheiro do governo. O problema \u00e9 que as universidades p\u00fablicas brasileiras s\u00e3o pessimamente administradas. Sua vers\u00e3o de democracia, profundamente assemble\u00edsta, s\u00f3 ajuda a aumentar a burocracia e os gastos p\u00fablicos. Essa \u00e9 uma situa\u00e7\u00e3o que piorou, sobretudo, no per\u00edodo de abertura pol\u00edtica, na d\u00e9cada de 80, quando, na universidade, democratiza\u00e7\u00e3o se tornou sin\u00f4nimo de forma\u00e7\u00e3o de conselhos e multiplica\u00e7\u00e3o de inst\u00e2ncias. Na pr\u00e1tica, tantas s\u00e3o as al\u00e7adas e as exig\u00eancias burocr\u00e1ticas que, parece inveross\u00edmil, um pesquisador com uma boa quantia de dinheiro na m\u00e3o passa mais tempo envolvido com presta\u00e7\u00e3o de contas do que com sua investiga\u00e7\u00e3o cient\u00edfica. Para agravar a situa\u00e7\u00e3o, os maus profissionais n\u00e3o podem ser demitidos. Defino a universidade p\u00fablica como a ant\u00edtese de uma empresa bem montada.<\/p>\n<p>Muita gente defende a expans\u00e3o das universidades p\u00fablicas. E a senhora?<br \/>\nSou contra. Nos pa\u00edses onde o ensino superior funciona, apenas um grupo reduzido de institui\u00e7\u00f5es concentra a maior parte da pesquisa acad\u00eamica, e as demais miram, basicamente, os cursos de gradua\u00e7\u00e3o. O Brasil, ao contr\u00e1rio, sempre volta \u00e0 id\u00e9ia de expandir esse modelo de universidade. \u00c9 um erro. Estou convicta de que j\u00e1 temos faculdades p\u00fablicas em n\u00famero suficiente para atender aqueles alunos que podem de fato vir a se tornar Ph.Ds. ou profissionais altamente qualificados. Estes s\u00e3o, naturalmente, uma minoria. Isso n\u00e3o tem nada a ver com o fato de o Brasil ser uma na\u00e7\u00e3o em desenvolvimento. \u00c9 exatamente assim nos outros pa\u00edses.<\/p>\n<p>As faculdades particulares s\u00e3o uma boa op\u00e7\u00e3o para os outros estudantes?<br \/>\nFreq\u00fcentemente, n\u00e3o. Aqui vale a pena chamar a aten\u00e7\u00e3o para um ponto: os cursos t\u00e9cnicos de ensino superior, ainda desconhecidos da maioria dos brasileiros, formam gente mais capacitada para o mercado de trabalho do que uma faculdade particular de ensino ruim. Esses cursos s\u00e3o mais curtos e menos pretensiosos, mas conseguem algo que muita universidade n\u00e3o faz: preparar para o mercado de trabalho. \u00c9 estranho como, no meio acad\u00eamico, uma forma\u00e7\u00e3o voltada para as necessidades das empresas ainda soa como pecado. As universidades dizem, sem nenhum constrangimento, preferir &#8220;formar cidad\u00e3os&#8221;. Cabe perguntar: o que o cidad\u00e3o vai fazer da vida se ele n\u00e3o puder se inserir no mercado de trabalho?<\/p>\n<p>Nos Estados Unidos, cerca de 60% dos alunos freq\u00fcentam essas escolas t\u00e9cnicas. No Brasil, s\u00e3o apenas 9%. Por qu\u00ea?<br \/>\nSempre houve preconceito no Brasil em rela\u00e7\u00e3o a qualquer coisa que lembrasse o trabalho manual, caso desses cursos. Vejo, no entanto, uma melhora no conceito que se tem das escolas t\u00e9cnicas, o que se manifesta no aumento da procura. O fato concreto \u00e9 que elas t\u00eam conseguido se adaptar \u00e0s demandas reais da economia. Da\u00ed 95% das pessoas, em m\u00e9dia, sa\u00edrem formadas com emprego garantido. O mercado, afinal, n\u00e3o precisa apenas de pessoas p\u00f3s-graduadas em letras que sejam peritas em cr\u00edtica liter\u00e1ria ou de estat\u00edsticos aptos a desenvolver grandes sistemas. \u00c9 simples, mas s\u00f3 o Brasil, v\u00edtima de certa arrog\u00e2ncia, parece ainda n\u00e3o ter entendido a li\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Faculdades particulares de baixa qualidade s\u00e3o, ent\u00e3o, pura perda de tempo?<br \/>\nEssas faculdades t\u00eam o foco nos estudantes menos escolarizados \u2013 da\u00ed serem t\u00e3o ineficientes. O objetivo n\u00famero 1 \u00e9 manter o aluno pagante. Que ningu\u00e9m espere entrar numa faculdade de mau ensino e concorrer a um bom emprego, porque o mercado brasileiro j\u00e1 sabe discernir as coisas. \u00c9 not\u00f3rio que tais institui\u00e7\u00f5es formam os piores estudantes para se prestar \u00e0s ocupa\u00e7\u00f5es mais med\u00edocres. Mas cabe observar que, mesmo mal formados, esses jovens levam vantagem sobre os outros que jamais pisaram numa universidade, ainda que tenham aprendido muito pouco em sala de aula. A l\u00f3gica \u00e9 t\u00edpica de pa\u00edses em desenvolvimento, como o Brasil.<\/p>\n<p>Por que num pa\u00eds em desenvolvimento o diploma universit\u00e1rio, mesmo sendo de um curso ruim, tem tanto valor?<br \/>\nNo Brasil, ao contr\u00e1rio do que ocorre em na\u00e7\u00f5es mais ricas, o diploma de ensino superior possui um valor independente da qualidade. Quem tem vale mais no mercado. \u00c9 a realidade de um pa\u00eds onde a maioria dos jovens est\u00e1 ainda fora da universidade e o diploma ganha peso pela raridade. Numa sele\u00e7\u00e3o de emprego, entre dois candidatos parecidos, uma empresa vai dar prefer\u00eancia, naturalmente, ao que conseguiu chegar ao ensino superior. Mas \u00e9 preciso que se repita: eles servir\u00e3o a uma classe de empregos bem med\u00edocres \u2013 jamais estar\u00e3o na disputa pelas melhores vagas ofertadas no mercado de trabalho.<\/p>\n<p>A tend\u00eancia \u00e9 que o mercado se encarregue de eliminar as faculdades ruins?<br \/>\nA experi\u00eancia mostra que, conforme a popula\u00e7\u00e3o se torna mais escolarizada e o mercado de trabalho mais exigente, as faculdades ruins passam a ser menos procuradas e uma parte delas acaba desaparecendo do mapa. Isso j\u00e1 foi comprovado num levantamento feito com base no antigo Prov\u00e3o. Ao jogar luz nas institui\u00e7\u00f5es que haviam acumulado notas vermelhas, o exame contribuiu decisivamente para o seu fracasso. O fato de o MEC intervir num curso que, testado mais de uma vez, n\u00e3o apresente sinais de melhora tamb\u00e9m \u00e9 uma medida sensata. O mau ensino, afinal, \u00e9 um grande desservi\u00e7o.<\/p>\n<p>A senhora fecharia as faculdades de pedagogia se pudesse?<br \/>\nAcho que elas precisam ser inteiramente reformuladas. Repensadas do zero mesmo. N\u00e3o \u00e9 preciso ir t\u00e3o longe para entender por qu\u00ea. Basta consultar os rankings internacionais de ensino. Neles, o Brasil chama aten\u00e7\u00e3o por uma raz\u00e3o para l\u00e1 de negativa. Est\u00e1 sempre entre os piores pa\u00edses do mundo em educa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Entrevista de Eunice Durham \u00e0s &#8220;P\u00e1ginas Amarelas&#8221; da revista Veja, na edi\u00e7\u00e3o de 26\/11\/2008: Hoje h\u00e1 poucos estudiosos empenhados em produzir pesquisa de bom n\u00edvel sobre a universidade brasileira. Entre eles, a antrop\u00f3loga Eunice Durham, 75 anos, vinte dos quais dedicados ao tema, tem o m\u00e9rito de tratar do assunto com rara objetividade. 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