{"id":924,"date":"2008-12-02T18:54:33","date_gmt":"2008-12-02T21:54:33","guid":{"rendered":"http:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/?p=924&#038;lang=pt-br"},"modified":"2012-02-10T18:19:38","modified_gmt":"2012-02-10T21:19:38","slug":"prioridades-para-bolsas-no-exterior-e-para-apoio-a-pesquisapriorities-for-fellowships-abroad-and-research-support","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/prioridades-para-bolsas-no-exterior-e-para-apoio-a-pesquisapriorities-for-fellowships-abroad-and-research-support\/","title":{"rendered":"Prioridades para bolsas no exterior e para apoio \u00e0 pesquisa|Priorities for fellowships abroad and research support"},"content":{"rendered":"<p><em>O globo.com publica hoje o texto abaixo meu, sobre a quest\u00e3o as prioridades em bolsas para o exterior e para a pesquisa: <\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Apesar da infelicidade dos<a href=\"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/?p=898&amp;lang=pt-br\" target=\"_blank\"> coment\u00e1rios recentes do presidente da CAPES<\/a> sobre as ci\u00eancias econ\u00f4micas (\u201cvamos continuar mandando alunos para formar doutores num modelo que faliu o mundo?\u201d) ele tem raz\u00e3o em pensar que \u00e9 preciso estabelecer prioridades e decidir como usar melhor os recursos p\u00fablicos. Uma bolsa de doutorado pode custar 200 mil d\u00f3lares, n\u00e3o podem existir muitas, e \u00e9 preciso ser muito criterioso na sua distribui\u00e7\u00e3o, n\u00e3o somente em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 qualidade dos candidatos, seus planos de trabalho e as universidades aonde pretendem ir, mas tamb\u00e9m em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 expectativa futura de sua inser\u00e7\u00e3o no pa\u00eds, assim como da poss\u00edvel contribui\u00e7\u00e3o de sua linha de trabalho. seja para a educa\u00e7\u00e3o superior, seja para o desenvolvimento da pesquisa e da tecnologia no pa\u00eds. Quando, tempos atr\u00e1s, eu disse em uma entrevista que haveria que pensar se devemos ou n\u00e3o dar prioridade \u00e0 f\u00edsica de particulas nos investimentos de pesquisa, deixando alguns f\u00edsicos indignados, eu estava expressando a mesma preocupa\u00e7\u00e3o (eu n\u00e3o disse nada, no entanto, nem poderia, sobre o valor intr\u00ednseco desta \u00e1rea de conhecimento, nem estava decidindo nada).<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">O governo federal, CAPES e CNPq, vem reduzindo sistematicamente as bolsas de estudo para o exterior, que est\u00e3o sendo substitu\u00eddas pelas chamadas \u201cbolsas sandwitch\u201d, em que os estudantes brasileiros passam um tempo fora, mas voltam para defender suas teses aqui. A id\u00e9ia de fortalecer os programas de doutorado no Brasil \u00e9 importante, mas existe tamb\u00e9m o risco de manter o pa\u00eds fechado para o resto do mundo. Apesar de muitos programas de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o de boa qualidade, o Brasil n\u00e3o tem nenhuma universidade de padr\u00e3o realmente internacional, e a experi\u00eancia cultural e pessoal de ver e entender como funciona uma destas universidades \u00e9 t\u00e3o ou mais importante do que o conte\u00fado da tese ou da pesquisa que o estudante desenvolva. N\u00e3o conhe\u00e7o nenhuma avalia\u00e7\u00e3o dos programas \u201csandwitch\u201d, mas eles t\u00eam dois \u00f3bvios problemas: a curta dura\u00e7\u00e3o e o fato de os estudantes ficarem fora dos programas regulares das universidades, o que significa que podem ficar marginalizados, sem entender muito do que est\u00e1 acontecendo \u00e0 sua volta, a n\u00e3o ser que tenham um orientador fortemente interessado em seu trabalho.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Por isto, \u00e9 importante manter aberta a janela da p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o no exterior, e n\u00e3o penalizar, como hoje ocorre, os cursos cujos melhores alunos s\u00e3o bem recebidos nos doutorados das melhores universidades l\u00e1 fora. Existe uma maneira f\u00e1cil de reduzir os custos ou dobrar o n\u00famero de bolsistas, que \u00e9 financiar somente os dois primeiros anos dos estudos de doutorado. Nos Estados Unidos pelo menos, depois de dois anos os bons estudantes de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o conseguem com facilidade uma bolsa local, ou um trabalho de assistente de pesquisa ou de ensino que pague seus custos e permita que participem mais plenamente da vida universit\u00e1ria. Estudantes que consigam bolsas de p\u00f3s-doutorado, ou contratos de trabalho de alta qualidade no exterior, deveriam ser estimulados a seguir adiante, e n\u00e3o ser for\u00e7ados a voltar para o pa\u00eds imediatamente, como ocorre hoje. Existe tamb\u00e9m o risco de o bolsista n\u00e3o voltar. Dar a bolsa na forma de um cr\u00e9dito, a ser perdoado caso o bolsista se integre a uma universidade ou centro de pesquisa no pa\u00eds, pode ser uma maneira de reduzir este risco. A experi\u00eancia mostra que, quando existem boas condi\u00e7\u00f5es e boas perspectivas de trabalho no Brasil, os estudantes que se formam no exterior preferem voltar, e os que ficam fora podem atuar como pontes importantes entre as comunidades cient\u00edficas e t\u00e9cnicas do Brasil e do exterior.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">O problema das prioridades \u00e9 mais complicado. Para muitos cientistas que conhecemos, a \u00fanica pol\u00edtica cient\u00edfica aceit\u00e1vel por parte do governo seria dar cada vez mais dinheiro para os pesquisadores, sem se perguntar para qu\u00ea e como este dinheiro est\u00e1 sendo utilizado. Isto funciona razoavelmente bem dentro de cada \u00e1rea de conhecimento, quando as diferentes propostas e solicita\u00e7\u00f5es s\u00e3o analisadas no m\u00e9rito por especialistas da pr\u00f3pria \u00e1rea. Mas as exig\u00eancias de avalia\u00e7\u00e3o podem ser muito diferentes de uma \u00e1rea para outra, as tentativas de medir e comparar o desempenho das \u00e1reas por indicadores objetivos como publica\u00e7\u00f5es internacionais ou cita\u00e7\u00f5es s\u00e3o muito prec\u00e1rias, e \u00e9 imposs\u00edvel muitas vezes distinguir entre a defesa da boa pesquisa e a defesa dos interesses corporativos dos pesquisadores, sobretudo quando os avaliadores s\u00e3o indicados pelas pr\u00f3prias institui\u00e7\u00f5es que v\u00e3o ser avaliadas, e os mais encrenqueiros s\u00e3o cuidadosamente evitados. Na falta de crit\u00e9rios adequados, a distribui\u00e7\u00e3o de recursos entre as diferentes \u00e1reas acaba ocorrendo de forma tradicional, dando mais para que tinha mais antes, ou a partir de preconceitos, f\u00e1ceis de ocorrer quando bi\u00f3logos acham que podem avaliar a economia, f\u00edsicos a ci\u00eancia pol\u00edtica, e soci\u00f3logos a pesquisa em gen\u00e9tica.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Quando governantes e burocratas tratam de estabelecer prioridades, os riscos s\u00e3o altos. A transfer\u00eancia do antigo CNPq para o Minist\u00e9rio do Planejamento, nos anos 70, foi baseada na id\u00e9ia de que a ci\u00eancia deveria ser planejada, e tivemos inclusive v\u00e1rios planos nacionais de desenvolvimento cient\u00edfico e tecnol\u00f3gico que, embora pudessem dar impress\u00e3o de coerentes, n\u00e3o passavam de uma listagem apressada do que j\u00e1 estava sendo financiando, criando para isto, no entanto, uma burocracia de custos cada vez maiores, que redundou da implanta\u00e7\u00e3o de um Minist\u00e9rio da Ci\u00eancia e Tecnologia em 1985 (coisa que os Estados Unidos e muitos outros pa\u00edses desenvolvidos n\u00e3o t\u00eam). Ainda precisa ser feita uma avalia\u00e7\u00e3o dos grandes projetos \u2013 sobretudo na \u00e1rea tecnol\u00f3gica, que s\u00e3o os mais caros \u2013 iniciados naqueles anos e que fracassaram, ou continuam existindo sem maiores perspectivas ou impacto. Eu listaria, como bons candidatos, a pol\u00edtica de inform\u00e1tica, o programa espacial e o programa nuclear. Uma lista mais detalhada incluiria um grande n\u00famero de projetos \u201cinduzidos\u201d pelas ag\u00eancias com as melhores das inten\u00e7\u00f5es, mas que deixaram de produzir resultados porque apostaram em institui\u00e7\u00f5es, pessoas e proje\u00e7\u00f5es tecnol\u00f3gicas equivocadas. Sem falar nas prioridades estabelecidas por puro preconceito contra ou a favor de determinados temas ou \u00e1reas de estudo e pesquisa.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">N\u00e3o h\u00e1 solu\u00e7\u00f5es f\u00e1ceis para esta situa\u00e7\u00e3o, mas alguns princ\u00edpios importantes poderiam ser \u00fateis. O primeiro \u00e9 diversificar. Quando existem v\u00e1rias ag\u00eancias em diferentes n\u00edveis de governo, cada qual com suas miss\u00f5es e prioridades, os riscos de errar s\u00e3o menores. A CAPES \u00e9 uma ag\u00eancia de apoio \u00e0 forma\u00e7\u00e3o de recursos humanos para o ensino superior, o CNPq cuida do fomento \u00e0 pesquisa b\u00e1sica e aplicada, a FINEP cuida dos projetos tecnol\u00f3gicos, as Funda\u00e7\u00f5es de Amparo \u00e0 Pesquisa estaduais t\u00eam uma \u00f3tica regional, etc. \u00c9 como deve ou deveria ser. Existem superposi\u00e7\u00f5es entre os trabalhos destas ag\u00eancias, o que \u00e9 bom, porque permite \u00e0s institui\u00e7\u00f5es e pesquisadores buscar apoio em um \u201cmercado\u201d diversificado de recursos e prioridades. O segundo \u00e9 se preocupar com os grandes projetos tecnol\u00f3gicos e de alto custo, e deixar espa\u00e7o para o varejo dos pequenos projetos e iniciativas, que devem ser financiados sobretudo atrav\u00e9s dos mecanismos cl\u00e1ssicos de controle de qualidade por revis\u00e3o por pares. O terceiro \u00e9, ao estabelecer projetos e \u00e1reas priorit\u00e1rias, n\u00e3o se limitar a dizer, por exemplo, que \u201ca nanotecnologia \u00e9 importante\u201d, e colocar dinheiro no setor, mas especificar, com muito mais clareza e detalhe, como os investimentos nesta \u00e1rea poder\u00e3o trazer resultados palp\u00e1veis, olhando, por exemplo, sua inser\u00e7\u00e3o em cadeias produtivas reais ou em forma\u00e7\u00e3o. Estas prioridades precisam ser traduzidas em linguagem suficientemente clara para serem entendidas pelos n\u00e3o especialistas, e acompanhadas de mecanismos tamb\u00e9m claros de avalia\u00e7\u00e3o externa de resultados.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Mais importante do que tudo isto, no entanto, \u00e9 o fato de que o Brasil investe muito pouco dinheiro em ci\u00eancia e tecnologia, &#8211; cerca de 1% do PIB, comparado com 2.5% da Alemanha, 2.6% dos Estados Unidos e 3% da Cor\u00e9ia. A diferen\u00e7a entre o Brasil e estes pa\u00edses n\u00e3o est\u00e1 s\u00f3 no fato de que investimos menos, mas no fato de que, nas economias desenvolvidas, os investimentos s\u00e3o feitos sobretudo por empresas ou institutos de tecnologia, enquanto que, no Brasil, predominam os gastos com pesquisas em institui\u00e7\u00f5es p\u00fablicas. N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel mudar de patamar e de escala dos investimentos em pesquisa no Brasil sem mudar este padr\u00e3o de financiamento, o que depende, por sua vez, de que as institui\u00e7\u00f5es p\u00fablicas se tornem muito mais abertas e orientadas para a cria\u00e7\u00e3o de pontes entre o trabalho acad\u00eamico e a busca de resultados pr\u00e1ticos e significativos das pesquisas. Nesta mudan\u00e7a, a pesquisa b\u00e1sica, acad\u00eamica e independente n\u00e3o pode nem precisa ser prejudicada, por que ela s\u00f3 consegue prosperar de fato quando o sistema de inova\u00e7\u00e3o de um pa\u00eds funcione como um todo, e envolva a participa\u00e7\u00e3o de cada vez mais recursos, pessoas, empresas e institui\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O globo.com publica hoje o texto abaixo meu, sobre a quest\u00e3o as prioridades em bolsas para o exterior e para a pesquisa: Apesar da infelicidade dos coment\u00e1rios recentes do presidente da CAPES sobre as ci\u00eancias econ\u00f4micas (\u201cvamos continuar mandando alunos para formar doutores num modelo que faliu o mundo?\u201d) ele tem raz\u00e3o em pensar que &hellip; <a href=\"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/prioridades-para-bolsas-no-exterior-e-para-apoio-a-pesquisapriorities-for-fellowships-abroad-and-research-support\/\" class=\"more-link\">Continue reading<span class=\"screen-reader-text\"> &#8220;Prioridades para bolsas no exterior e para apoio \u00e0 pesquisa|Priorities for fellowships abroad and research support&#8221;<\/span><\/a><!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on get_the_excerpt --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on get_the_excerpt --><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_crdt_document":"","footnotes":""},"categories":[16,11],"tags":[],"class_list":["post-924","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-ciencia-e-tecnologia","category-educacao-superior"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/924","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=924"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/924\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2725,"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/924\/revisions\/2725"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=924"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=924"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=924"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}