{"id":93,"date":"2006-08-21T00:25:00","date_gmt":"2006-08-21T03:25:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/?p=93"},"modified":"2008-08-03T17:51:55","modified_gmt":"2008-08-03T20:51:55","slug":"debate-sobre-cotas-no-cebrap","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/debate-sobre-cotas-no-cebrap\/","title":{"rendered":"Debate sobre cotas no CEBRAP"},"content":{"rendered":"<p>No dia 11 de agosto participei de um \u201cdebate sobre cotas\u201d no CEBRAP, em S\u00e3o Paulo,  juntamente com Ant\u00f4nio S\u00e9rgio Guimar\u00e3es.  O ponto principal de minha apresenta\u00e7\u00e3o foi que a educa\u00e7\u00e3o superior brasileira tem problemas importantes, mas que as cotas, raciais ou sociais, n\u00e3o s\u00e3o a resposta, porque elas partem de um entendimento errado a respeito de quais s\u00e3o estes problemas, tanto em rela\u00e7\u00e3o ao acesso ao ensino superior, quanto ao sistema de ensino superior brasileiro em si. Estou resumindo abaixo a primeira parte, e a segunda fica para um pr\u00f3ximo blog.<\/p>\n<p>No in\u00edcio, procurei mostrar, com dados da PNAD de 2004 (a Pesquisa Nacional por Amostra de Domic\u00edlios do IBGE), que as diferen\u00e7as de acesso \u00e0 educa\u00e7\u00e3o pelos diferentes grupos de cor, na defini\u00e7\u00e3o do IBGE, vem se alterando rapidamente. Na popula\u00e7\u00e3o total, mais ou menos metade das pessoas se declaram \u201cbrancas\u201d nas pesquisas, uns 45% se declaram \u201cpardos\u201d, e uns 5% se declaram \u201cnegros\u201d (daqui em diante utilizarei estas denomina\u00e7\u00f5es sem aspas). Na popula\u00e7\u00e3o de mais de 20 anos, existem 4,1 vezes mais brancos do que pardos e pretos com educa\u00e7\u00e3o superior no Brasil (7,7 e 1,8 milh\u00f5es, respectivamente), refletindo o passado de desigualdades. No ensino m\u00e9dio, a diferen\u00e7a cai para 1,4 vezes (15,7 para 10,9 milh\u00f5es).  A maioria destas pessoas j\u00e1 n\u00e3o est\u00e1 mais estudando.  Entre os que est\u00e3o estudando hoje, a diferen\u00e7a no ensino superior \u00e9 muito menor, de 2.6 vezes (3 ,4 para 1,3 milh\u00f5es), e no n\u00edvel m\u00e9dio, \u00e9 de 1.1 vezes (4,5 para 4,1 milh\u00f5es), ou seja, praticamente igual \u00e0 distribui\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o. No ensino fundamental, j\u00e1 n\u00e3o existem diferen\u00e7as. A explica\u00e7\u00e3o \u00e9 simples: na medida em que o sistema educacional se amplia, o acesso se torna maior, e a metade n\u00e3o branca da popula\u00e7\u00e3o brasileira, que \u00e9 tamb\u00e9m a mais pobre, vai encontrando mais espa\u00e7o.<\/p>\n<p>A grande expans\u00e3o do ensino m\u00e9dio dos \u00faltimos anos j\u00e1 come\u00e7a a pressionar o ensino superior, e, para ver o que est\u00e1 acontecendo nesta passagem, fiz uma an\u00e1lise dos dados mais recentes do Exame Nacional do Ensino M\u00e9dio, o ENEM, tornados acess\u00edveis pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais, o INEP.<\/p>\n<p>Os dados do ENEM n\u00e3o s\u00e3o representativos da popula\u00e7\u00e3o, j\u00e1 que a participa\u00e7\u00e3o \u00e9 volunt\u00e1ria, mas j\u00e1 incluem um grupo bem significativo de pessoas. Em 2005 se inscreveram cerca de 3 milh\u00f5es de jovens, dos quais cerca de 2 milh\u00f5es fizeram as provas  e responderam a um question\u00e1rio socioecon\u00f4mico, que continha uma pergunta sobre \u201ccor\u201d, igual \u00e0 do IBGE.  A distribui\u00e7\u00e3o \u00e9 muito semelhante \u00e0 da popula\u00e7\u00e3o, com 45% de brancos, 38.4% de pardos e 12% de pretos \u2013 este \u00faltimo o dobro, em termos proporcionais, do que na popula\u00e7\u00e3o como um todo. Analisando os resultados da prova objetiva, encontramos, como era de se esperar, uma grande varia\u00e7\u00e3o do desempenho em fun\u00e7\u00e3o da educa\u00e7\u00e3o  e da renda das fam\u00edlias de origem dos candidatos, e tamb\u00e9m diferen\u00e7as por cor. A m\u00e9dia dos brancos na prova objetiva \u00e9 42,9; dos pardos 36,9; e dos pretos, 35,6;  uma diferen\u00e7a,  portanto, de 7.3 pontos entre brancos e pretos. A m\u00e9dia para todo o pa\u00eds \u00e9 de 40 pontos. Em termos de renda,  as m\u00e9dias s\u00e3o de 31,6 para as fam\u00edlias com at\u00e9 1 sal\u00e1rio m\u00ednimo, e 59.6 para as fam\u00edlias 10 a 30 sal\u00e1rios m\u00ednimos \u2013 28 pontos de diferen\u00e7a, portanto.  A diferen\u00e7a entre os filhos de m\u00e3es s\u00f3 com educa\u00e7\u00e3o prim\u00e1ria e com educa\u00e7\u00e3o superior \u00e9 de cerca de 20 pontos. Dentro de cada grupo de renda ou educa\u00e7\u00e3o familiar, as diferen\u00e7as de grupos de cor persistem, mas em menor grau: entre brancos e pretos (excluindo os pardos), as diferen\u00e7as s\u00e3o de  2 pontos entre as fam\u00edlias de um sal\u00e1rio m\u00ednimo,  e 10 pontos entre fam\u00edlias de 10 a 30 sal\u00e1rios m\u00ednimos; 3,1 pontos para filhos de m\u00e3es que s\u00f3 completaram o antigo prim\u00e1rio, e 12% para filhos de m\u00e3es com educa\u00e7\u00e3o superior.<\/p>\n<p>Estes dados mostram, primeiro, que as diferen\u00e7as de renda e educa\u00e7\u00e3o familiar, e n\u00e3o a cor, s\u00e3o os principais correlatos dos resultados do ENEM, que, por sua vez, s\u00e3o uma indica\u00e7\u00e3o razo\u00e1vel da chance de a pessoa entrar em uma universidade mais competitiva. Segundo, que existem diferen\u00e7as entre os grupos de cor que persistem nos diferentes grupos de renda e educa\u00e7\u00e3o familiar. E, terceiro, que estas diferen\u00e7as aumentam na medida em que aumenta a renda e a educa\u00e7\u00e3o das fam\u00edlias, como se os ganhos  em educa\u00e7\u00e3o e renda das fam\u00edlias pretas (e, em menor grau, pardas) n\u00e3o fossem suficientes para que os filhos obtenham ganhos equivalentes em seu desempenho escolar.<\/p>\n<p>Alguns economistas t\u00eam descrito estas diferen\u00e7as n\u00e3o explicadas estatisticamente como \u201cdiscrimina\u00e7\u00e3o\u201d.  No entanto, n\u00e3o h\u00e1 evid\u00eancia de que seja esta de fato a explica\u00e7\u00e3o das diferen\u00e7as. Elas podem se dever, por exemplo, ao fato de que os ganhos sociais e econ\u00f4micos das fam\u00edlias pardas e negras sejam mais recentes, que os cursos superiores dos pais tenham sido completados em carreiras e institui\u00e7\u00f5es de menor qualidade, e que estas fam\u00edlias ainda n\u00e3o tenham conseguido acumular o \u201ccapital cultural\u201d que \u00e9 o requisito para o bom desempenho escolar. Uma indica\u00e7\u00e3o do que pode estar ocorrendo pode-se ver na percentagem de pessoas que estudaram em escolas particulares, cuja qualidade em geral \u00e9 maior, nos n\u00edveis mais altos de renda e educa\u00e7\u00e3o. Entre as fam\u00edlias entre 9 e 15 mil reais mensais de renda, 59% dos brancos estudaram em escolas particulares, assim como 61% dos pardos, mas somente 28.6% dos pretos. Entre as fam\u00edlias cujas m\u00e3es t\u00eam n\u00edvel superior completo, 40% dos brancos, 30% dos pardos e 18.7% dos pretos estudaram em escola particular.<\/p>\n<p>O ENEM tem v\u00e1rias perguntas sobre percep\u00e7\u00e3o e experi\u00eancia de discrimina\u00e7\u00e3o. Muito poucos se dizem preconceituosos, mas cerca de 30 a 40% v\u00eam preconceitos nos colegas e nas pr\u00f3prias fam\u00edlias. Mais da metade dos pretos, e 16% dos pardos, dizem que j\u00e1 sofreram discrimina\u00e7\u00e3o. Mas ter ou n\u00e3o sofrido discrimina\u00e7\u00e3o n\u00e3o afeta os resultados no ENEM.<\/p>\n<p>\u00c9 poss\u00edvel, no entanto, que as crian\u00e7as pretas e pardas estejam sofrendo formas de discrimina\u00e7\u00e3o que n\u00e3o aparecem nas estat\u00edsticas, e que podem estar afetando seu desempenho?  \u00c9 claro que \u00e9 poss\u00edvel, e at\u00e9 mesmo prov\u00e1vel. Mas o que as estat\u00edsticas mostram \u00e9 que, com ou sem discrimina\u00e7\u00e3o, o que mais determina as diferen\u00e7as de resultado e de oportunidades educacionais s\u00e3o a renda das fam\u00edlias, a educa\u00e7\u00e3o dos pais,  e outras vari\u00e1veis como o tipo de escola que o jovem freq\u00fcentou. \u00c9 importante conhecer melhor, enfrentar e corrigir os problemas de discrimina\u00e7\u00e3o, assim como os fatores que levam muitas fam\u00edlias, mesmo educadas e ricas, a n\u00e3o proporcionar a seus filhos as condi\u00e7\u00f5es adequadas para que estudem e se desenvolvam.  Mudar tudo isto \u00e9 dif\u00edcil, caro e complicado. Criar cotas raciais nas universidades por decreto \u00e9 simples e barato.  Mas n\u00e3o resolve, e acaba desviando a aten\u00e7\u00e3o de aonde est\u00e3o os verdadeiros problemas.<\/p>\n<p>Fico devendo a segunda parte da discuss\u00e3o, sobre o sistema universit\u00e1rio brasileiro e o que fazer com ele.<\/p>\n<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No dia 11 de agosto participei de um \u201cdebate sobre cotas\u201d no CEBRAP, em S\u00e3o Paulo, juntamente com Ant\u00f4nio S\u00e9rgio Guimar\u00e3es. 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