{"id":95,"date":"2006-08-27T23:49:00","date_gmt":"2006-08-28T02:49:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/?p=95"},"modified":"2008-08-03T14:59:20","modified_gmt":"2008-08-03T17:59:20","slug":"debate-sobre-cotas-no-cebrap-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/debate-sobre-cotas-no-cebrap-2\/","title":{"rendered":"Debate sobre cotas no CEBRAP &#8211; 2"},"content":{"rendered":"<p>O debate sobre cotas nas universidades lida com uma dimens\u00e3o do ensino superior no Brasil, a do acesso, mas n\u00e3o s\u00f3 deixa outras quest\u00f5es importantes de fora, como que acaba ocupando todo espa\u00e7o  do debate p\u00fablico sobre a quest\u00e3o universit\u00e1ria, que fica em segundo plano.<\/p>\n<p>Em minha apresenta\u00e7\u00e3o no CEBRAP,  chamei a aten\u00e7\u00e3o para o fato de que o sistema de ensino superior brasileiro \u00e9 fortemente estratificado, tanto no sentido de que a maior parte dos alunos v\u00eam de camadas sociais m\u00e9dias e altas, como no sentido de que a estratifica\u00e7\u00e3o se d\u00e1 no interior das institui\u00e7\u00f5es. Anteriormente, as institui\u00e7\u00f5es p\u00fablicas tendiam a ser de melhor qualidade, gratuitas e de dif\u00edcil acesso, enquanto que as privadas, al\u00e9m de pagas, eram de pior qualidade, e aceitavam qualquer tipo de aluno.  Hoje, existem muitas institui\u00e7\u00f5es p\u00fablicas t\u00e3o ruins quanto muitas privadas, e diferen\u00e7as importantes dentro de cada institui\u00e7\u00e3o; um n\u00famero crescente de institui\u00e7\u00f5es privadas de elite, sobretudo nas \u00e1reas de administra\u00e7\u00e3o e direito; e um segmento crescente de educa\u00e7\u00e3o superior privada de acesso gratuito, com poucos requisitos de entrada, e financiado pelo governo federal atrav\u00e9s do ProUni. Para os estudantes que entram nos cursos e institui\u00e7\u00f5es de pior qualidade, p\u00fablicos ou privados, pagando ou sem pagar, com ou sem cotas, as chances s\u00e3o altas de que aprendam pouco e mal, abandonem o curso antes de diplomar, e, mesmo se conseguirem o diploma, deixem de obter os benef\u00edcios que esperavam que ele trouxesse.  Na medida em que o ensino superior se expanda, o mais prov\u00e1vel \u00e9 que sejam os segmentos de m\u00e1 qualidade que cres\u00e7am, porque estes s\u00e3o os mais baratos, e com isto aumentem estes problemas, a um custo crescente para a sociedade, em dinheiro e frustra\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O caminho n\u00e3o \u00e9 deter a expans\u00e3o,  mas tornar o sistema mais diversificado e mais eficiente. A diversifica\u00e7\u00e3o consiste em criar alternativas reais ao modelo dominante de ensino superior, calcado nas antigas profiss\u00f5es liberais, e abrir espa\u00e7o para diferentes tipos de forma\u00e7\u00e3o,  para pessoas com diferentes interesses e condi\u00e7\u00f5es de estudo. Hoje, em toda a Europa, discute-se o modelo de Bologna, que combina um n\u00edvel inicial de tr\u00eas anos para todo o ensino superior, mais acad\u00eamico ou mais aplicado, seguido de um per\u00edodo de forma\u00e7\u00e3o profissional de dois anos (equivalente ao mestrado), e outro adicional de tr\u00eas ou quatro anos para a forma\u00e7\u00e3o de alto n\u00edvel; esta discuss\u00e3o, at\u00e9 agora, n\u00e3o chegou ao Brasil.  Se as universidade p\u00fablicas fossem mais eficientes, elas poderiam, com os mesmos recursos que tem hoje, melhorar sua qualidade e atender a mais alunos.  Para se tornarem mais eficientes, elas precisam deixar de funcionar como reparti\u00e7\u00f5es p\u00fablicas,  assumir a responsabilidade pela gest\u00e3o plena de seus recursos materiais e humanos, e serem cobradas por seus resultados.<\/p>\n<p>Como n\u00e3o h\u00e1 recursos para continuar financiando a  expans\u00e3o do ensino superior p\u00fablico e gratuito, diante das prioridades muito maiores da educa\u00e7\u00e3o b\u00e1sica e m\u00e9dia, \u00e9 necess\u00e1rio recolocar a quest\u00e3o do ensino  superior p\u00fablico gratuito, e o espa\u00e7o adequado do ensino privado. A expans\u00e3o depende hoje, fundamentalmente, do setor privado, que j\u00e1 atende \u00e0 70% da matr\u00edcula no ensino superior do pa\u00eds. O atual governo, apesar de tratar o setor privado quase como delinq\u00fcente, no projeto de reforma que elaborou, foi o primeiro da hist\u00f3ria recente do pa\u00eds a subsidi\u00e1-lo diretamente, atrav\u00e9s da isen\u00e7\u00e3o de impostos do ProUni.  \u00c9 importante criar um marco regulat\u00f3rio adequado tanto para o setor p\u00fablico quanto para o setor privado, para estimular a qualidade de ambos, assim como os espa\u00e7os para novas modalidades de educa\u00e7\u00e3o nos mais diversos n\u00edveis, e para diferentes p\u00fablicos.<\/p>\n<p>Parece que esquecemos, finalmente, que uma das fun\u00e7\u00f5es fundamentais do ensino superior \u00e9 a forma\u00e7\u00e3o de alto n\u00edvel e a pesquisa cient\u00edfica e tecnol\u00f3gica. Isto est\u00e1 dito em todos os documentos p\u00fablicos, frequentemente em termos da famosa \u201cindissociabilidade do ensino, pesquisa e extens\u00e3o\u201d. O que n\u00e3o se diz \u00e9 que, em todo mundo, a excel\u00eancia s\u00f3 se consegue em algumas poucas institui\u00e7\u00f5es, geridas por crit\u00e9rios estritos de qualidade e desempenho, e com n\u00edveis de financiamento muito superiores \u00e0s demais. Sem uma politica deliberada de excel\u00eancia e concentra\u00e7\u00e3o de recursos, associada a um processo bastante amplo de diferencia\u00e7\u00e3o e amplia\u00e7\u00e3o do acesso, n\u00e3o iremos a nenhuma parte.<\/p>\n<p>Em um contexto mais amplo de reformas, cabem, certamente, pol\u00edticas compensat\u00f3rias para aumentar a diversidade dos jovens que chegam \u00e0s universidades, desde que acompanhadas de programas educacionais adequados e apoio financeiro para que o acesso ao ensino superior n\u00e3o seja uma simples farsa; e sem que as pessoas precisem ser catalogadas e etiquetadas pelas autoridades conforme a ra\u00e7a de seus av\u00f3s.<\/p>\n<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O debate sobre cotas nas universidades lida com uma dimens\u00e3o do ensino superior no Brasil, a do acesso, mas n\u00e3o s\u00f3 deixa outras quest\u00f5es importantes de fora, como que acaba ocupando todo espa\u00e7o do debate p\u00fablico sobre a quest\u00e3o universit\u00e1ria, que fica em segundo plano. Em minha apresenta\u00e7\u00e3o no CEBRAP, chamei a aten\u00e7\u00e3o para o &hellip; <a href=\"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/debate-sobre-cotas-no-cebrap-2\/\" class=\"more-link\">Continue reading<span class=\"screen-reader-text\"> &#8220;Debate sobre cotas no CEBRAP &#8211; 2&#8221;<\/span><\/a><!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on get_the_excerpt --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on get_the_excerpt --><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_crdt_document":"","footnotes":""},"categories":[11,14],"tags":[],"class_list":["post-95","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-educacao-superior","category-politica-racial"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/95","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=95"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/95\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":463,"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/95\/revisions\/463"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=95"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=95"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=95"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}