{"id":957,"date":"2009-01-04T19:35:15","date_gmt":"2009-01-04T22:35:15","guid":{"rendered":"http:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/?p=957"},"modified":"2009-01-04T21:12:18","modified_gmt":"2009-01-05T00:12:18","slug":"bernardo-sorj-oriente-medio-o-caminho-da-paz-nao-passa-pelo-maniqueismo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/bernardo-sorj-oriente-medio-o-caminho-da-paz-nao-passa-pelo-maniqueismo\/","title":{"rendered":"Bernardo Sorj: Oriente M\u00e9dio: o caminho da paz  n\u00e3o passa pelo manique\u00edsmo"},"content":{"rendered":"<p><em>A invas\u00e3o de Gaza pelas tropas de Israel \u00e9 mais um cap\u00edtulo de uma trag\u00e9dia de radicaliza\u00e7\u00f5es e equ\u00edvocos diante da qual \u00e9 muito f\u00e1cil tomar posi\u00e7\u00f5es movidas pela emo\u00e7\u00e3o ou pelo oportunismo, e muito dif\u00edcil buscar caminhos que possam levar a uma paz duradoura.\u00a0 O que penso a respeito est\u00e1 muito bem expresso no artigo abaixo, de Bernardo Sorj.<\/em><\/p>\n<p><strong><em>Compreender sem\u00a0 simplificar<\/em><\/strong><\/p>\n<p>O conflito no Oriente M\u00e9dio \u00e9\u00a0 complexo. Aqueles que procuram\u00a0 transform\u00e1-lo\u00a0 num filme de Hollywood\u00a0 no qual o mocinho e o bandido s\u00e3o claramente identific\u00e1veis e em que um lado representa o bem e o outro lado o mal est\u00e3o fazendo um desservi\u00e7o \u00e0\u00a0\u00a0 verdade\u00a0 e \u00e0 causa da paz.<\/p>\n<p>Como em geral acontece com\u00a0 os dramas\u00a0 hist\u00f3ricos, o conflito no Oriente M\u00e9dio \u00e9\u00a0 a conseq\u00fc\u00eancia n\u00e3o-intencional de projetos humanos em que cada ator social procura realizar seus pr\u00f3prios objetivos, que terminam colidindo\u00a0 com os de outro ator.\u00a0 Tendo como base o drama de dois povos reivindicando a mesma terra, as lideran\u00e7as pol\u00edticas de ambos\u00a0 lados\u00a0 acumularam\u00a0 erros que\u00a0 alimentaram a desconfian\u00e7a e o extremismo no interior de cada povo, dificultando ainda mais o caminho da paz.<\/p>\n<p>Que erros foram esses? Sem entrar em detalhes hist\u00f3ricos que fugiriam aos limites deste curto artigo, podemos indicar, nas \u00faltimas d\u00e9cadas, do lado dos governos\u00a0 israelenses, a ocupa\u00e7\u00e3o militar e a expans\u00e3o constante das col\u00f4nias na Cisjord\u00e2nia e, do lado das lideran\u00e7as palestinas, a coniv\u00eancia com o terrorismo e a ambig\u00fcidade em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 plena aceita\u00e7\u00e3o da exist\u00eancia do Estado de Israel.<\/p>\n<p><strong><em>Criticar sem ofender nem mentir<\/em><\/strong><\/p>\n<p>O caminho da paz exige a comunica\u00e7\u00e3o e o reconhecimento da humanidade de todos. Quem quer a guerra v\u00ea o dem\u00f4nio no outro. Desumanizar o advers\u00e1rio, em algum momento, justifica a sua destrui\u00e7\u00e3o. Durante os cinco anos\u00a0 morei em\u00a0 Israel e\u00a0 lutei com meus colegas \u00e1rabes pela paz e contra a pol\u00edtica israelense de colonizar os territ\u00f3rios conquistados na guerra de 1967. Na \u00e9poca, enfrentei com meus colegas\u00a0 os pol\u00edticos israelenses que procuravam assimilar\u00a0 Arafat a\u00a0 Hitler e o movimento palestino, ao nazismo. Hoje sofro quando vejo grupos pr\u00f3-palestinos fazerem o mesmo em rela\u00e7\u00e3o ao sionismo. Dizer que\u00a0 o sionismo equivale ao nazismo \u00e9 uma mentira deslavada, uma agress\u00e3o moral. E, como tal,\u00a0 produz do lado israelense e judeu uma rea\u00e7\u00e3o defensiva que alimenta o\u00a0 sentimento de incompreens\u00e3o e a incomunica\u00e7\u00e3o. Sejamos claros: Hitler exterminou sistematicamente todos os judeus que se encontravam nos territ\u00f3rios ocupados pela Alemanha nazista. Acontece que, no\u00a0 Estado de Israel,\u00a0 em l949, viviam 120.000\u00a0 \u00e1rabes. Hoje, hoje eles s\u00e3o mais de um milh\u00e3o. Calcula-se em\u00a0 torno de 500.000 os refugiados \u00e1rabes da guerra de 1948. Eles e seus descendentes\u00a0 somam de\u00a0 4 a 5 milh\u00f5es. N\u00e3o houve, em nenhum sentido poss\u00edvel do conceito, um genoc\u00eddio. N\u00e3o se trata de negar o sofrimento pelo qual passou e passa o povo palestino. Mas n\u00e3o desvalorizemos os fatos hist\u00f3ricos,\u00a0 respeitando\u00a0 os sentimentos daqueles que passaram pela experi\u00eancia do\u00a0 holocausto.\u00a0 E lembremos, sobretudo, que\u00a0 as palavras n\u00e3o s\u00e3o ing\u00eanuas.\u00a0 Quem fala de genoc\u00eddio transforma o outro em genocida,\u00a0 o que permite que seja\u00a0 tratado como tal.<\/p>\n<p><strong><em>Direitos humanos ou instrumentaliza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica?<\/em><\/strong><\/p>\n<p>Entendo\u00a0 a simpatia e solidariedade com a causa palestina, seja\u00a0 do mundo \u00e1rabe, de descendentes de \u00e1rabes e mu\u00e7ulmanos e de\u00a0 pessoas de boa vontade identificada com o sofrimento palestino. Este sentimento \u00e9 compreens\u00edvel, assim como \u00e9 a preocupa\u00e7\u00e3o de judeus e n\u00e3o-judeus com a seguran\u00e7a de Israel. Mas em nenhum dos dois casos \u00e9 aceit\u00e1vel o apoio acr\u00edtico\u00a0 a lideran\u00e7as radicais, seja israelenses que n\u00e3o se disp\u00f5em \u00e1 devolver os territ\u00f3rios conquistados, seja\u00a0 palestinas que sustentam um programa pol\u00edtico que prop\u00f5e a destrui\u00e7\u00e3o do Estado de Israel. Preocupa-me e d\u00f3i a manipula\u00e7\u00e3o pol\u00edtica do conflito por intelectuais e organiza\u00e7\u00f5es que, no Brasil e no exterior,\u00a0 assumem uma posi\u00e7\u00e3o antiisraelense prim\u00e1ria, em geral ignorante da hist\u00f3ria da regi\u00e3o que,\u00a0 por momentos, beira\u00a0 o anti-semitismo e cuja \u00fanica motiva\u00e7\u00e3o \u00e9 uma ideologia pol\u00edtica que associa Israel aos Estados Unidos. Para tais grupos, os Estados Unidos s\u00e3o o grande inimigo. Ergo, quem est\u00e1\u00a0 associado com o diabo, diabo \u00e9. Preocupa e d\u00f3i porque esses indiv\u00edduos e grupos manipulam a bandeira dos direitos humanos, por\u00e9m n\u00e3o t\u00eam nenhum compromisso real com o sofrimento humano. Porque, se tal sentimento existisse, estariam tamb\u00e9m fazendo panfletos e circulando com as bandeiras do povo checheno, curdo, sudan\u00eas ou\u00a0 tibetano, que custaram e continuam cobrar a vida de milh\u00f5es de pessoas. Mas a agenda destes grupos n\u00e3o \u00e9 a dos direitos humanos nem a da paz do Oriente M\u00e9dio. \u00c9 uma agenda pol\u00edtica que quer ver o circo pegar fogo para confirmar os preconceitos ideol\u00f3gicos. \u00c9, portanto, uma agenda perigosa, irrespons\u00e1vel e desumana.<\/p>\n<p><strong><em>O povo palestino e o mundo \u00e1rabe, Israel\u00a0 e o povo judeu n\u00e3o\u00a0 s\u00e3o homog\u00eaneos<\/em><\/strong><\/p>\n<p>No ardor da\u00a0 luta\u00a0 contra o ataque militar\u00a0 israelense,\u00a0 parte da\u00a0 m\u00eddia e de grupos pr\u00f3-palestinos e pr\u00f3-Israel transmite a\u00a0 imagem de que a causa palestina e o mundo \u00e1rabe e mu\u00e7ulmano, assim como\u00a0 Israel e o povo judeu, constituem uma unidade. Transformam um\u00a0 conflito pol\u00edtico nacional no qual est\u00e3o em jogo interesses e estrat\u00e9gias terrenas em um conflito religioso. Nada mais longe da realidade. O mundo \u00e1rabe est\u00e1 \u2013 e sempre esteve \u2013 dividido.\u00a0 Para cada governo \u00e1rabe, a causa palestina ocupa um lugar espec\u00edfico no seu\u00a0 projeto pol\u00edtico interno e externo.\u00a0 Afinal, n\u00e3o podemos esquecer que o territ\u00f3rio reivindicado pelo povo palestino para a cria\u00e7\u00e3o de seu Estado nacional esteve, entre 1948 e 1967, nas m\u00e3os da Jord\u00e2nia e do Egito, n\u00e3o de Israel. No lado israelense, a divis\u00e3o pol\u00edtica interna sempre foi expl\u00edcita e, embora as rela\u00e7\u00f5es entre boa parte da di\u00e1spora judaica e Israel sejam de solidariedade, isso\u00a0 n\u00e3o significa nenhum alinhamento ou co-responsabilidade com os governos eleitos pelos cidad\u00e3os de Israel (inclusive pelos 20% de \u00e1rabes israelenses).<\/p>\n<p>Lembrar que n\u00e3o vivemos em mundos culturais formados por blocos coesos \u00e9 fundamental. O fanatismo e o extremismo de cada lado se alimentam mutuamente.\u00a0 Falemos claro: nem o extremismo palestino nem o israelense t\u00eam interesse em negocia\u00e7\u00f5es pol\u00edticas, pois nenhum deles est\u00e1 disposto a abrir m\u00e3o de seus sonhos maximalistas. O caso do assassinato de Rabin \u00e9 exemplar: morto por um extremista\u00a0 israelense,\u00a0 sua obra de pacifica\u00e7\u00e3o\u00a0 n\u00e3o p\u00f4de ser completada por Shimon Peres,\u00a0 pois, apesar de sua\u00a0 enorme vantagem inicial na campanha eleitoral, a onda de atentados terroristas palestinos\u00a0 levou ao poder um primeiro- ministro da extrema direita.<\/p>\n<p><strong><em>O que ser\u00e1?<\/em><\/strong><\/p>\n<p>Nenhum povo\u00a0 tem\u00a0 o monop\u00f3lio\u00a0 da moral nem est\u00e1 ao abrigo de entrar num ciclo de destrui\u00e7\u00e3o.\u00a0 Quem quiser procurar na hist\u00f3ria fatos favor\u00e1veis \u00e0 vers\u00e3o de\u00a0 cada lado os encontrar\u00e1 em quantidades monumentais. O caminho da paz exige um doloroso esfor\u00e7o de abandono dos mitos e ilus\u00f5es que cada parte\u00a0 elaborou\u00a0 sobre si mesmo e o outro. O\u00a0\u00a0\u00a0 passado n\u00e3o\u00a0 pode\u00a0 ser esquecido, todavia ser\u00e1 em torno de uma vis\u00e3o do futuro que\u00a0 um novo presente poder\u00e1 ser constru\u00eddo.<\/p>\n<p>Penso que n\u00f3s,\u00a0 que n\u00e3o participamos diretamente da vida pol\u00edtica dos pa\u00edses da regi\u00e3o devemos lutar pelo essencial: apoiar a abertura de todos os\u00a0 canais\u00a0 de comunica\u00e7\u00e3o, de toda iniciativa de paz. N\u00f3s, que temos a sorte de viver\u00a0 no Brasil, um pa\u00eds\u00a0 que, apesar dos imensos\u00a0 problemas sociais, \u00e9 um exemplo para o mundo de conviv\u00eancia prazerosa entre as diversas religi\u00f5es, devemo-nos esfor\u00e7ar por alimentar o di\u00e1logo, a esperan\u00e7a\u00a0 e a abertura\u00a0 de esp\u00edrito, n\u00e3o permitindo que a intoler\u00e2ncia e o \u00f3dio nos contaminem.<\/p>\n<p>&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;-<\/p>\n<p>Bernardo Sorj \u00e9 professor titular de Sociologia da UFRJ e Diretor do Centro Edelstein de Pesquisas S\u00f3cias<\/p>\n<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A invas\u00e3o de Gaza pelas tropas de Israel \u00e9 mais um cap\u00edtulo de uma trag\u00e9dia de radicaliza\u00e7\u00f5es e equ\u00edvocos diante da qual \u00e9 muito f\u00e1cil tomar posi\u00e7\u00f5es movidas pela emo\u00e7\u00e3o ou pelo oportunismo, e muito dif\u00edcil buscar caminhos que possam levar a uma paz duradoura.\u00a0 O que penso a respeito est\u00e1 muito bem expresso no &hellip; <a href=\"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/bernardo-sorj-oriente-medio-o-caminho-da-paz-nao-passa-pelo-maniqueismo\/\" class=\"more-link\">Continue reading<span class=\"screen-reader-text\"> &#8220;Bernardo Sorj: Oriente M\u00e9dio: o caminho da paz  n\u00e3o passa pelo manique\u00edsmo&#8221;<\/span><\/a><!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on get_the_excerpt --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on get_the_excerpt --><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_crdt_document":"","footnotes":""},"categories":[12],"tags":[],"class_list":["post-957","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-politica-internacional"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/957","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=957"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/957\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":961,"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/957\/revisions\/961"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=957"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=957"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=957"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}