{"id":962,"date":"2009-01-06T13:51:02","date_gmt":"2009-01-06T16:51:02","guid":{"rendered":"http:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/?p=962"},"modified":"2009-01-06T13:52:51","modified_gmt":"2009-01-06T16:52:51","slug":"claudio-m-considera-os-caes-ladram-e-a-caravana-passa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/claudio-m-considera-os-caes-ladram-e-a-caravana-passa\/","title":{"rendered":"Claudio M. Considera: os c\u00e3es ladram e a caravana passa"},"content":{"rendered":"<p><em>No texto abaixo, Cl\u00e1udio Considera mostra o papel positivo da atua\u00e7\u00e3o do Banco Central na economia brasileira nos \u00faltimos anos:<\/em><\/p>\n<p>O Brasil, como mencionou Paulo Hermany em artigo no jornal <em>Valor Econ\u00f4mico<\/em> (04\/072007), \u00e9 dos poucos pa\u00edses ricos em que o ultrapassado debate desenvolvimentistas x monetaristas ainda viceja. Aqueles que se dizem desenvolvimentistas (que se dizem os economistas do bem) parecem acreditar fielmente que o desejo dos monetaristas neo-liberais (ditos os economistas do mal) \u00e9 atravancar o desenvolvimento econ\u00f4mico e o bem estar da sociedade, ao atacarem de forma contundente qualquer amea\u00e7a do retorno da infla\u00e7\u00e3o e preferirem o mercado ao Estado. Em particular, ao longo do governo Lula, v\u00e1rios economistas e boa parte de seus eleitores se dizem tra\u00eddos por nada ter mudado na pol\u00edtica econ\u00f4mica: nenhuma das maluquices que o nosso presidente e seu partido prometiam antes de eleitos foi praticada.\u00a0\u00a0 De forma mais aguda, no per\u00edodo recente, quando o Banco Central, frente \u00e0 amea\u00e7a do aumento da taxa de infla\u00e7\u00e3o, retomou o aumento progressivo da taxa SELIC, v\u00e1rios economistas tem vociferado contra essa pol\u00edtica.<\/p>\n<p>Um dos argumentos \u00e9 que se trata de um choque externo (infla\u00e7\u00e3o de custos) que n\u00e3o pode ser debelada por pol\u00edtica monet\u00e1ria. Para o Banco Central, esse dito choque externo s\u00f3 seria propagado se a autoridade monet\u00e1ria tentasse acomodar essa situa\u00e7\u00e3o atrav\u00e9s de uma pol\u00edtica monet\u00e1ria frouxa. Para um Banco Central, toda infla\u00e7\u00e3o \u00e9 infla\u00e7\u00e3o de demanda ou ser\u00e1 acomodada atrav\u00e9s desta, o que deve ser evitado para prevenir contra uma espiral pre\u00e7os-sal\u00e1rios. Outro argumento \u00e9 que a pol\u00edtica de juros provoca uma oferta abundante de d\u00f3lares que causa uma sobrevaloriza\u00e7\u00e3o artificial do Real, prejudicando as exporta\u00e7\u00f5es e favorecendo as importa\u00e7\u00f5es, tornando nossa economia menos competitiva. Nosso saldo comercial tem sido superavit\u00e1rio ao longo de toda essa pol\u00edtica monet\u00e1ria praticada e recentemente com a crise mundial parece que ir\u00e1 se reverter, ou, pelo menos, se reduzir, a despeito da recente desvaloriza\u00e7\u00e3o cambial. Os economistas cr\u00edticos parecem ignorar li\u00e7\u00f5es de livro texto de macroeconomia que demonstram que al\u00e9m do c\u00e2mbio tamb\u00e9m a renda mundial afeta nossas exporta\u00e7\u00f5es; assim como, que al\u00e9m do c\u00e2mbio a renda dom\u00e9stica tamb\u00e9m afeta nossas importa\u00e7\u00f5es. Em que intensidade essas for\u00e7as atuam determinar\u00e3o o resultado da balan\u00e7a comercial e da pr\u00f3pria taxa de c\u00e2mbio.<\/p>\n<p>O resultado concreto da interveni\u00eancia do Banco Central ao longo do governo Lula \u00e9 dos mais promissores: a infla\u00e7\u00e3o est\u00e1 contida dentro das apertadas metas estabelecidas pela autoridade monet\u00e1ria; as reservas internacionais somam folgados 200 bilh\u00f5es de d\u00f3lares, gra\u00e7as aos recorrentes super\u00e1vits comerciais; o PIB tem crescido a taxas expressivas e neste ano vinha crescendo quase em ritmo chin\u00eas; a taxa de desemprego caiu para 7%, algo n\u00e3o visto h\u00e1 muito tempo; o rendimento m\u00e9dio real tem crescido; e o investimento tem crescido, alcan\u00e7ando cerca de 20% do PIB. A \u00fanica nota destoante nos fundamentos macroecon\u00f4micos \u00e9 a pol\u00edtica fiscal, com o aumento das despesas do governo, notadamente aquelas de pessoal que ser\u00e3o permanentes; mas, mesmo assim, n\u00e3o impediu que a meta de super\u00e1vit prim\u00e1rio deste ano fosse alcan\u00e7ada o que obviamente, s\u00f3 foi poss\u00edvel gra\u00e7as ao forte aumento da carga tribut\u00e1ria no per\u00edodo.<\/p>\n<p>J\u00e1 houve quem alegasse que tais resultados iriam ocorrer de qualquer maneira e que a pol\u00edtica monet\u00e1ria apenas impediu que o Brasil se aproveitasse plenamente da bonan\u00e7a da economia mundial com mais crescimento e emprego. J\u00e1 houve quem alegasse que esses resultados s\u00e3o pura sorte e que derivam dos ventos favor\u00e1veis da economia mundial, embora o cen\u00e1rio externo favor\u00e1vel tenha de fato contribu\u00eddo para o bom desempenho da economia no per\u00edodo. Entretanto, v\u00e1rias perguntas podem ser feitas a esse respeito. Esses resultados teriam sido poss\u00edveis caso ainda tiv\u00e9ssemos a bagun\u00e7a fiscal da d\u00e9cada de 80, a irresponsabilidade monet\u00e1ria deflagrada em 1980 e seguida durante aquela d\u00e9cada, a interven\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica do Estado na economia, com controle de pre\u00e7os (instaurado em 1967 e s\u00f3 extinto em 1994) e de c\u00e2mbio, e cerca de 800 empresas estatais atrasadas e ineficientes, que se tornaram verdadeiros gargalos para nossa economia? Em suma, os resultados obtidos com a perseveran\u00e7a da busca dos fundamentos macroecon\u00f4micos \u00ac\u00ac&#8211; estabilidade monet\u00e1ria, responsabilidade fiscal e o livre funcionamento dos mercados, com regula\u00e7\u00e3o apropriada onde necess\u00e1rio &#8212; seriam alcan\u00e7ados caso fosse seguida no mundo de hoje a receita dos ditos desenvolvimentistas que foi aplicada durante a d\u00e9cada de 80?<\/p>\n<p>Antes que nos d\u00e9ssemos conta de que a busca dos fundamentos macroecon\u00f4micos pregados pelos ditos monetarista neo-liberais era fundamental, nos debatemos na d\u00e9cada de 80 e in\u00edcio dos 90 com tentativas de retorno a um passado de interven\u00e7\u00e3o estatal quando o capital internacional era abundante e as taxa de juros baixas. Passamos por um verdadeiro purgat\u00f3rio econ\u00f4mico que foi o processo de estabiliza\u00e7\u00e3o monet\u00e1ria, mas que trouxe muitos benef\u00edcios sociais (redu\u00e7\u00e3o da pobreza, entre eles) e institucionais (melhoria dos c\u00e1lculos empresariais e salariais). Enfrentamos 5 crises internacionais e sobrevivemos com o produto crescendo, o desemprego sendo reduzido e a infla\u00e7\u00e3o controlada; no per\u00edodo recente pudemos nos aproveitar da continuidade dessa pol\u00edtica e alcan\u00e7ar taxas de crescimento do PIB mais elevadas embora moderadas.<\/p>\n<p>A divulga\u00e7\u00e3o dos resultados do PIB do terceiro trimestre mostra que o Banco Central estava com a raz\u00e3o: a taxa de crescimento do PIB estava caminhando acima do produto natural (ou estrutural, ou mais simplificadamente, potencial) e isso estava acarretando um aumento da infla\u00e7\u00e3o. A demanda dom\u00e9stica no terceiro trimestre cresceu impressionantes 9,4%, e s\u00f3 pode ser acomodada por um forte aumento das importa\u00e7\u00f5es \u2013 numa tend\u00eancia insustent\u00e1vel a m\u00e9dio prazo. Esta percep\u00e7\u00e3o obrigou o Banco Central a retomar sua pol\u00edtica monet\u00e1ria contracionista, cujos resultados j\u00e1 se mostram na redu\u00e7\u00e3o das taxas de crescimento dos pre\u00e7os. A confian\u00e7a dos empres\u00e1rios de que os fundamentos macroecon\u00f4micos continuariam a ser perseguidos aumentou os investimentos e o emprego e a estabilidade monet\u00e1ria permitiu ganhos substanciais na renda real dos trabalhadores.<\/p>\n<p>Com a crise econ\u00f4mica a taxa de crescimento do produto deve ser menor, o desemprego deve aumentar um pouco, o Real vis a vis o d\u00f3lar continuar\u00e1 em torno do padr\u00e3o atual (em torno de R$2,50\/US$), ou mesmo reverter caindo algo em torno de 10%; a taxa de infla\u00e7\u00e3o continuar\u00e1 dentro da meta; deveremos ter uma redu\u00e7\u00e3o das importa\u00e7\u00f5es, o que permitir\u00e1 manter super\u00e1vit na balan\u00e7a comercial e algum equil\u00edbrio em contas correntes. Ou seja, n\u00e3o estamos blindados, mas certamente melhor preparados para enfrentar essa crise do que j\u00e1 estivemos no passado, gra\u00e7as ao conjunto de pol\u00edticas econ\u00f4micas que escolhemos seguir desde 1994.<\/p>\n<p>N\u00e3o nos descolamos (decoupling) da crise mundial e tamb\u00e9m n\u00e3o teremos um crescimento aut\u00e1rquico associado aos pa\u00edses emergentes. Parece, entretanto, que conseguimos nos descolar das pol\u00edticas \u201cperfeito-idiotas\u201d que nos levaram \u00e0 fal\u00eancia na d\u00e9cada de 80. Infelizmente, o mesmo n\u00e3o ocorreu com os nossos vizinhos Argentina, Equador, Bol\u00edvia, Venezuela, com a elevada possibilidade de Paraguai e Uruguai virem a eles se juntar.<\/p>\n<p>&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;-<\/p>\n<p>Cl\u00e1udio Monteiro Considera \u00e9 professor de economia da Universidade Federal Fluminense<\/p>\n<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No texto abaixo, Cl\u00e1udio Considera mostra o papel positivo da atua\u00e7\u00e3o do Banco Central na economia brasileira nos \u00faltimos anos: O Brasil, como mencionou Paulo Hermany em artigo no jornal Valor Econ\u00f4mico (04\/072007), \u00e9 dos poucos pa\u00edses ricos em que o ultrapassado debate desenvolvimentistas x monetaristas ainda viceja. Aqueles que se dizem desenvolvimentistas (que se &hellip; <a href=\"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/claudio-m-considera-os-caes-ladram-e-a-caravana-passa\/\" class=\"more-link\">Continue reading<span class=\"screen-reader-text\"> &#8220;Claudio M. Considera: os c\u00e3es ladram e a caravana passa&#8221;<\/span><\/a><!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on get_the_excerpt --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on get_the_excerpt --><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_crdt_document":"","footnotes":""},"categories":[10],"tags":[],"class_list":["post-962","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-economia"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/962","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=962"}],"version-history":[{"count":5,"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/962\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":967,"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/962\/revisions\/967"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=962"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=962"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.schwartzman.org.br\/sitesimon\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=962"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}