Os trens da alegria da educação| The joy rides of education

Nos anos 50, o governo federal criou uma grande rede de universidades em todo país, transformando antigas escolas superiores estaduais, municipais e particulares em universidades públicas, e criando outras por decreto. Quando fui aluno da Faculdade de Economia da UFMG, ainda tive muitos professores que eram  “catedráticos fundadores”, antigos professores de  escolas técnicas de nível médio que nunca haviam publicado ou pesquisado nada na vida, não sabiam nada de economia nem de ciências sociais, e que eram quem mandavam na Faculdade. Algumas destas instituições que já tinham alguma tradição, como a própria UFMG, aproveitaram a oportunidade e se transformaram em universidades de verdade; algumas faculdades também floresceram; mas a maioria se transformou em repartições públicas proporcionando ensino medíocre e fazendo muito pouco em termos de pesquisa. O Brasil hoje tem a rede de educação superior mais cara da América Latina, sem ter muito mais qualidade por causa disto.

Em 1993 os pesquisadores federais não universitários, em instituições como o IBGE, Comissão de Energia Nuclear, INPI, Fundação Oswaldo Cruz, CAPES e outros, conseguiram que o governo aprovasse uma lei criando uma carreira de ciência e tecnologia, que deveria dar a esta categoria um nível salarial e condições de progresso funcional adequados.  No bolo, além da carreira de pesquisador, foi criada também uma carreira de “Desenvolvimento Tecnológico”  e outra de “Gestão, Planejamento e Infraestrutura em Ciência e Tecnologia”, e com isto praticamente todos os funcionários destas e outras instituições, pesquisadores ou não, entraram na carreira.  Com isto, a carreira ficou enorme, acabou se diluindo, os salários deixaram de se diferenciar, e o trem da alegria foi parando aos poucos. O IPEA, que ficou de fora, se saiu muito melhor.

Olhando para trás, fica óbvio que haveriam muitas outras maneiras mais inteligentes de apoiar o crescimento e desenvolvimento do ensino superior e da pesquisa científica sem estes trens da alegria, estimulando as instituições que se destacassem, fazendo parcerias com governos estaduais, etc. Quando isto ocorreu, sobretudo na área do apoio à pós-graduação por parte da CAPES e do CNPq, os resultados foram muito melhores.

A lógica destes trens da alegria é simples. Os interessados se organizam, se  já não estão organizados, e pressionam o Congresso. Professores e pesquisadores têm bons argumentos – é preciso desenvolver a educação e a pesquisa, etc.  Outros funcionários das mesmas instituições também aderem – seria uma injustiça melhorar as condições de uns e não de outros. Além disto, quanto mais gente empurrando, mais forte a pressão.  Os congressistas, que não entendem bem mas não querem ficar mal com ninguém, apoiam, e o governo federal sanciona, com alguns vetos aqui e alí.  Quem é contra é acusado de ser contra a educação e a pesquisa, ou neo-liberal e privatista.

Agora estamos diante de novas ondas de trens da alegria, no ensino técnico e na educação básica. Em julho de 2008 o governo federal enviou ao Congresso um projeto de criação de uma  “rede federal de educação científica e tecnológica”  de 38 instituições, incluindo os atuais CEFETS  e escolas técnicas espalhadas pelo país.  A lista de atribuções destas novas instituições é grandiosa, da educação de jovens e adultos e ensino técnico de nível médio à pesquisa tecnológica e a pós-graduação strito senso.  Sobre as enormes diferenças entre as instituições sendo criadas ou promovidas, sobre os aspectos positivos e negativos da longa experiêcia do governo federal com os CEFETs, (que estão se transformando em universidades e pouco se dedicaram de fato à formação profisional) nem uma palavra. Os cargos de magníficos reitores já foram criados, e daqui a pouco, se já não ocorreu, todos professores destas instituições reivindicarão isonomia com os professores das universidades federais.

Mas o mais grave é o que se anuncia para o ensino básico. Começou com a lei 11.738 de 11 de julho deste ano, que criou um piso salarial para professores de todo o país. Quem poderia ser contra?  Além de criar um piso, a lei diz que os professores só podem dedicar 2/3 do seu tempo para dar aulas, criando um aumento de despesas e a necessidade de contratação de novos professores que muitos estados e municipios não têm como financiar.

Ao mesmo tempo, existem projetos de lei em andamento, desde 2003, como o da Senadora Fátima Cleide, (PLS 507/2003) para redefinir o que se entende por “profissionais da educação básica”, para incluir, além dos professores, todas as pessoas que trabalham em escolas.  A única solucão seria o governo federal, cujos recursos muita gente ainda pensa que são infinitos, pagar a conta, ou encampar de vez as redes estaduais e municipais de educação, como vem propondo o Senador Cristóvão Buarque. O ex Ministro da Educação, que deveria entender do assunto, já encaminhou projeto  de lei (PLS 320/2008)  criando o “Programa Federal de Educação Integral de Qualidade para Todos e a Carreira Nacional do Magistério da Educação de Base.”, que prevê a contratação de professores para a educação básica pelo MEC, com salário médio igual ao do Colégio D. Pedro II, de R$ 4.000,00, e a entrada em atividade desses professores, sob supervisão do MEC, nas escolas estaduais e municipais.  Um outro projeto institui o 14o salário para professores, e outro ainda institui o ano sabático a cada sete anos para todos os professores. Só isto significa que o número de professores no país deverá aumentar em pelo menos em 15%, fora o aumento causado pela limitação do número de horas que os professores podem ensinar,  sem aumentar em nada  o tempo de permanência das crianças nas escolas, ou reduzir o número de escolas secundárias noturnas. Depois virão, certamente, as equivalências de direitos entre professores e outros trabalhadores da educação, isonomia com as universidades, e assim por diante

Que eu saiba, ninguém parou para fazer a conta de quanto isto custará para a Viuva, e é possivel que boa parte desta festa seja vetada pelo governo federal, com a crise que está se instalando.  Mas, além do dinheiro, este movimento pela federalização e aumento indiscriminado de gastos vai contra tudo o que se sabe sobre o que dá e não dá certo em educação:  que estas grandes redes federalizadas não funcionam, e, uma vez criadas, são quase impossíveis de desmontar; que aumentos de salário, por si mesmos, não melhoram a educação; que o ensino técnico e profissional deve ser  desburocratizado, vinculado ao setor produtivo e proporcionado por instituições especializadas;  que os sistemas escolares devem ser descentralizados, com escolas autônomas e vinculadas às comunidades; que o papel dos governos estaduais e federal deve ser o de estabelecer padrões de qualidade, criar incentivos ao desempenho, melhorar a qualidade da formação dos professores e dar apoio didático e pedagógico às escolas e professores que necessitem, e não administrar as escolas e seus professores diretamente.  Se for possível subsidiar a educação dos muncipios mais pobres, como aliás o FUNDEB já prevê, e aumentar os salários de todos os que trabalham em educação, ótimo, mas não à custa de todas as outras atividades do setor, e sem tomar em conta as enormes diferenças entre as redes estaduais e municipais de educação do país.

Se este trem da alegria passar, a possibilidade de fazer com que a educação brasileira saia do buraco negro em que se encontra ficará mais remota do que nunca.

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Author: Simon

Simon Schwartman é sociólogo, mineiro e brasileiro. Vive no Rio de Janeiro

4 thoughts on “Os trens da alegria da educação| The joy rides of education”

  1. Sua nota sobre os trens da alegria aponta, corretamente, para a rendição total do governo ao corporativismo. E isso, infelizmente, não ocorre apenas no governo federal, ocorre no Congresso e nos Governos sub-nacionais. No caso do Piso, sou testemunha de que o Ministro da Educação, os deputados federais e os Secretários do CONSED receberam análises mostrando que as contas não fecham. Prevaleceu o bom-mocismo.

  2. O tema tratado por Simon é de grande importância e merece um debate aprofundado. O assunto é muito sério, sobretudo o pacote de leis com o claro objetivo de federalizar a educação básica, na contramão das reformas bem sucedidas de outros países. Ressalto apenas dois pontos. Primeiro,a lei que estabelece diretrizes de carreira de professores é claramente inconstitucional, pois além de criar despesas sem definir receitas novas aos estados e municipios, entra em detalhes organizacionais que reforçam o corporativismo radical e desconhecem a diversidade dos sistemas estaduais e municipais. Em segundo lugar, a proposta de criação do Programa Nacional de Formação Docente, que prevê 1 bilhão de reais para sua implementação, não aborda a questão crucial para melhorar a formação inicial e continuada de professores que é a revisão dos currículos das licenciaturas e os critérios de avaliação dos estágios dos alunos. Em suma, vamos aumentar os investimentos em educação, o que é desejável, mas não vamos atacar os pontos centrais para melhorar a qualidade.

  3. Acredito que educação não pode ser visto, como gasto e sim como investimento, além do que educação é caro sim. Será que o investimento está sendo questionado porque é para as classes populares?

  4. Perfeita a análise sobre como se emprega mal o dinheiro público em educação. Esperemos todo que estes novos trens da alegria não passem e que os governos , esse e os que o sucederem, definam políticas educacionais a médio e longo prazo, políticas factíveis e menos classistas. Parece que a escola é feita só para os professores. O tempo todo se fala desta classe sofredora e mal remunerada ( verdade que o é) , mas não se cobra desempenho nem vejo grande preocupação com a meta final que é a aprendizagem doa aluno. Não adianta federalizar, importa apoiar tecnicamente e com recursos que sejam fiscalizados todas as escolas já municipalizadas. Investir no ensino técnico é algo óbvio , mas é póssível fazer parcerias com o mercado produtivo, senão corre-se o risco de ter milhares de alunos se profissionalizando para nada do que o mercado precisa como já aconteceu no passado. Pobre país em que a cada ano nas avaliações internacionais o desempenho dos alunos consegue piorar mais ainda, sem falar nas nacionais em que a comparação é interna e os resultados t~em sido pífios.
    Iza Locateççi

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