Liberalismo ou fascismo?

(publicado em O Globo / Opinião, 23 de maio de 2020)

Do deprimente vídeo da reunião de governo de Bolsonaro, quase todos os comentários se concentraram nos palavrões, nos insultos e sobre se ele disse ou não se pretendia intervir na polícia federal. Mas o que mais me chamou a atenção foi a parte em que ele fala da facilidade com que se poderia implantar uma ditadura no Brasil, e da necessidade de armar a população para resistir e se defender. Pedro Dória, do Meio, e Demétrio Magnoli, na GloboNews, também deram destaque a isto, sendo que Doria interpreta como sendo uma manifestação de liberalismo extremo como o que grassa em alguns setores nos Estados Unidos, a busca da volta a uma sociedade que teria existido no século 18, de um Estado diminuto e uma população organizada em milícias e armada para se defender. Mas me parece que a inspiração não é esta, e sim do fascismo, objeto de um livro recente de Antonio Scurati sobre Mussolini que resenhei em um artigo de alguns meses atrás.

Que risco é este de ditadura que Bolsonaro tanto teme? Não são justamente ele e seu grupo mais próximo que ficam o tempo todo ameaçando fechar o Congresso e o Judiciário?  Mas ele mesmo dá exemplos do que pensa: o risco da ditadura viria dos governadores e prefeitos que mandam as pessoas ficar em casa para controlar a epidemia , da pessoa que impede que seu irmão entre em um açougue sem máscara, das instituições que tentam investigar seus filhos, do Supremo Federal que impede que ele nomeie seu amigo para polícia federal, do Congresso que não aprova suas medidas provisórias. Ele ataca o governador do Rio de Janeiro porque acha que ele está conspirando para incriminar sua família, mas não diz uma palavra sobre a violência policial que o governador estimula, que mata milhares de pessoas, nem sobre as milícias que exploram e também matam a população em sua cidade. 

O que Bolsonaro tem na cabeça não é um Estado mínimo e uma população armada para se defender, mas um Estado máximo, sem limites, controlado por um ditador acima das leis e apoiado por milícias armadas dedicadas a manter a oposição acuada e liquidar todas as outras formas de autoridade pública (o “casamento” com o liberalismo de Paulo Guedes é de mera conveniência, como foi o casamento com Sérgio Moro).  Mussolini conseguiu isso na Itália, com um discurso violento contra as instituições e a mobilização de pequenos grupos de ex-militares e marginais, os Fasci Italiani di Combattimento. Explorando a crise econômica e social depois da Primeira Guerra, os fascistas foram aos poucos ganhando adeptos e culminaram na famosa marcha sobre Roma de 1922, que forçou o governo a nomeá-lo como Primeiro Ministro, posição a partir da qual, metodicamente, foi desmontando as instituições e implantando sua ditadura pessoal, até a aventura da Segunda Guerra Mundial. 

Como mostra Scurati, as milícias fascistas que chegaram a Roma eram um bando caótico e desorganizado que poderia ter sido facilmente detido pelo exército, que no entanto ficou confuso e acuado e não saiu em defesa do Estado de direito. O poder crescente de Mussolini não se devia somente à oratória e à força amedrontadora das milícias, mas, por trás, a negociações secretas e troca de favores com os mesmos grupos políticos e econômicos que denunciava em público, e um processo regular de liquidação dos aliados que ousavam voo próprio.

Não sei se este modelo está sendo seguido deliberadamente, mas é difícil que a semelhança seja mera coincidência.

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Author: Simon

Simon Schwartman é sociólogo, mineiro e brasileiro. Vive no Rio de Janeiro

12 thoughts on “Liberalismo ou fascismo?”

  1. Estou extasiada,você falou tudo que eu sempre falei
    Que o Bolsonaro ia dar um golpe de estado,que ele estava segundo.os passos do Mussolini.
    Riram de mim! Vendo aquele vídeo da reunião ministerial onde ele fala em.ditadura em armar o povo,é o ministro da educação falando que veio foi pra lutar pra livrar o pais das garras do fascismo.
    Eu tive a certeza que era mesmo o caminho do golpe armado da ditadura.
    Ele esta fazendo de tudo pra provocar uma reação do STF ou do congresso pra incitar o povo contra estes poderes,e a milícia armada atacar.
    Hoje tive a confirmação quando o Trump fechou a fronteira com o Brasil dizendo ser por motivo sanitário,mas la esta pior ou.igual.ao.Brasil. Se não tem uma ajudinha do Tio Sam nesta tomada de poder.
    Não duvido de mais nada.
    Já que pensamos igual,me fala como vamos ficar?

  2. O que é mais impressionante, mas não sem precedentes históricos — ver Éric Vuillard,”A ordem do dia”, e Jean-Louis Vuillerme, “Espelho do Ocident” –, é que J.Bolsonaro segue tim-tim-por-tim–tim a cartilha de A.Hitler ao cooptar o grande capital oligárquico e organizar milícias armadas formadas por delinquentes para impor sua ditadura nazista curupira. Se estes 2 pilares não forem desmantelados, como diria minha avó Lalá, “as consequências inevitáveis sempre virão depois”. Os deuses que nos acudam, pois a quarentena não nos permite irmos à luta nas ruas.

    1. O SISTEMA JURÍDICO NO BRASIL PRODUZ DITADURAS!

      Hoje, Miriam Leitão em comentário na CBN disse não se conformar com a interferência do Executivo no órgão máximo de acusação, só que o Executivo nomeia este órgão (qual a estranheza?). Em entrevista à BBC o ex-presidente FHC foi perguntado sobre influência de sua administração na mesma PGR e, em resposta o então presidente disse que o MP no Brasil era independente o que fez o repórter insistir: “MAS O SENHOR ESCOLHE O ACUSADOR, COMO PODE SER INDEPENDENTE?” Bem, como na PGR, também nas instâncias máximas do Judiciário estaduais, bem como nos Tribunais Superiores e no STF a nomeação é do Executivo! Combatemos essa imiscuição garantidos na Constituição que determina em Princípios Fundamentais a necessária independência entre os Poderes e eleição de seus órgãos. Sem que os três Poderes de governo sejam independentes e eleitos seus órgãos pelos cidadãos, não se cumpre a ordem da Constituição.

      LOGO, NÃO FALEM DE DITADURA NO BRASIL COMO SE FOSSE UMA NOVIDADE:

      O SISTEMA AQUI PRODUZ DITADURAS!

      https://www.youtube.com/watch?v=cmAKMby2B0M

      https://www.youtube.com/watch?v=zv7vLVz_tvI

  3. Uma ressalva ao final, o que seria ” um exército confuso e acuado” ? Não haveria aqui e alí uma conjugação de interesses corporativos ?

  4. Excelente e também assustador! Como chegamos a isto depois de tantas dificuldades para a redemocratização do Brasil?

    1. Caro Simon, muito obrigado por compartilhar sua análise. É muito importante, nesse momento tão difícil, que vozes se manifestem contra o estado atual das coisas. Infelizmente a pandemia não ajuda eventuais protestos que poderiam ocorrer. Por isso é tão importante que os meios de comunicação sejam efetivos, como os grandes jornais, meios eletrônicos e a televisão.
      Abraço e cuide-se bem.

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