O novo livro de João Batista Araujo e Oliveira, Inteligência: O ativo estratégico que o Brasil não pode desperdiçar, recém publicado e disponível gratuitamente na Amazon, parte de uma constatação óbvia mas, por alguma razão, politicamente incômoda: há muitas crianças no Brasil com capacidade excepcional que o sistema educacional brasileiro não apenas ignora, mas sistematicamente desperdiça.
É um tema difícil de tratar, porque não só no Brasil, como em boa parte do mundo, o tema da excelência educacional carrega uma sombra ideológica pesada. Sabe-se, e com razão, que o desempenho escolar está fortemente associado às condições sociais de origem das pessoas. Em geral, quem vai bem na escola tende a ser filho de quem foi bem. Promover a equidade no acesso à educação de qualidade, reduzindo os efeitos das diferenças sociais que ela tantas vezes encobre, tem sido, com razão, um tema central nas políticas e movimentos pela melhoria da educação brasileira. Daí a suspeita, nem sempre infundada, de que falar em “talentos” ou “altas habilidades” é uma forma elegante de naturalizar a desigualdade e proteger os já privilegiados.
Essa suspeita, porém, quando se converte em interdição intelectual, produz um efeito perverso: impede que se trate de forma diferente pessoas que são, de fato, diferentes — tanto os que têm dificuldades sérias de aprendizagem e precisam de suporte específico, quanto os que têm capacidade de desempenho excepcional e precisam de desafio, não de contenção.
O tema da qualidade entrou na agenda das políticas educacionais brasileiras na década de 1990 com o Sistema de Avaliação da Educação Básica – SAEB. O objetivo era, e continua sendo, detectar a média de desempenho dos estudantes e identificar escolas, redes e regiões de baixo desempenho, e criar estímulos para que melhorem. Os dados mostram que o desempenho escolar das crianças até aos 11 anos têm melhorado desde entao, mas tem se mantido estagnado ao final do ensino fundamental e médio, aos 15 e 17 anos. Esta estagnação aparece com mais clareza quando olhamos os resultados do exame muito mais abrangente que é o PISA, da OECD, aplicado em muitas partes do mundo a crianças de 15 anos ao final da educação fundamental. A média é brasileira é ruim, mas a percentagem de crianças de alto desempenho é pior. Nesta prova, pouco mais de 1% dos alunos brasileiros atingem níveis avançados de proficiência. Em países comparáveis, essa proporção chega a 15% ou 20%.
O SAEB tem a vantagem de colocar a questão da qualidade explicitamente na agenda, mas não enfrenta a questão da excelência, possivelmente pelo temor de que uma ênfase nos níveis mais elevados de desempenho seja interpretada como elitista. Esse temor é ainda mais pronunciado no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (IDEB) que dilui a dimensão do desempenho ao combiná-la com dados de fluxo escolar. O resultado é um indicador que pode melhorar simplesmente porque mais alunos passam de ano, ainda que aprendam menos, tornando ainda mais invisível o problema da excelência e da fronteira do conhecimento.
Não é possível ignorar a necessidade de melhorar a qualidade geral do sistema nem subestimar o peso das desigualdades sociais. Mas a equidade mal entendida pode abandonar os que mais precisariam de tratamento diferenciado. A noção de que mesmo num sistema mais igualitário as pessoas diferem e não podem ser submetidas ao mesmo molde continua sendo um para muitos um tabu, como ficou evidente na resistência ao projeto de reforma do ensino médio que tentou trazer para o Brasil a possibilidade de que os estudantes, a pertir dos 15 anos, sigam trajetórias distintas de estudo confirme suas condições e interesses, como acontece na maior parte do mundo.
Em seu livro, João Batista agumenta que o crescimento econômico no século XXI não depende mais predominantemente de capital físico ou da expansão média da escolaridade, mas da capacidade de identificar e desenvolver os indivíduos capazes de operar na fronteira do conhecimento. Uma fração pequena da população responde por parcela desproporcional das inovações, patentes e rupturas tecnológicas que movem economias intensivas em conhecimento. O resultado do descaso brasileiro com essa agenda é, suas palavras , “um desperdício silencioso de inteligência — invisível nas estatísticas, mas economicamente mensurável em inovação que não ocorre, empresas que não surgem, tecnologias que não são desenvolvidas e liderança científica que não se consolida.”
O que fazer? Primeiro, é preciso identificar as crianças de alto potencial o mais cedo possível, esteja onde estiverem,. A identificação deve ser universal, e não pode ser baseada em indicação de professores, que tendem a reproduzir as desigualdades de origem. Ela deve ser feita por instrumentos padronizados de avaliação cognitiva aplicados a toda a população escolar, de forma precoce e com possibilidade de reavaliação ao longo da trajetória. Estudos americanos mostram que triagens universais aumentam substancialmente a identificação de alunos de alta capacidade oriundos de famílias de baixa renda que, de outra forma, permaneceriam invisíveis. Uma vez identificados, esses alunos precisam de três coisas que a escola comum não oferece: aceleração curricular compatível com seu ritmo de aprendizagem, currículos de alta exigência conceitual e convivência com pares de capacidade equivalente, que é o que estimula e mantém o engajamento intelectual. Países que levam isso a sério — Estados Unidos, Coreia do Sul, Singapura, Israel — operam com arquiteturas integradas: escolas seletivas, olimpíadas robustas, institutos científicos para jovens, programas de mentoria com pesquisadores em atividade.
As Olimpíadas escolares que existem no Brasil já funcionam como um importante mecanismo de identificação de talentos, de valor amplamente reconhecido. Mas é preciso identificar e apoiar os talentos muito mais cedo, antes que eles se percam por falta de estímulo e apoio e pelo peso das rotinas escolares. Existe tecnologia para isto, é um projeto barato, e só falta empenho para levá-lo adiante.